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Elis Regina, essas mulheres

 

 

por Rogério Ratner

É quase uma unanimidade o fato de Elis Regina ter sido uma das melhores cantoras surgidas no âmbito da MPB em toda a sua história, e para muitos, a melhor, sendo considerada inclusive insubstituível neste posto, mesmo ad futuram. Contudo, são diversos os fundamentos apontados pelos seus fãs, ouvintes e a imprensa especializada, para lastrear tamanha consideração de seu talento. De fato, pode-se dizer que cada um tem seus próprios motivos para realçar a grandeza desta cantora gaúcha, cujo nome se imbrica profundamente com a história da própria MPB nas décadas de 60, 70, e início dos anos 80, até o seu trágico passamento, em 1982.

Lembro bem do dia do falecimento de Elis, e do que eu fazia no momento da notícia: estava em Ibiúna, no interior de São Paulo, num encontro de um grupo juvenil de que fazia parte, que congregava jovens de todo o Brasil. Todos ficaram chocados, e de pronto paralisaram as suas atividades para comentar e lamentar a enorme perda, profundamente abalados e atordoados com a notícia. Foi interessante notar como a presença e a força de Elis como cantora calava fundo nas pessoas de todas as regiões do país; não seria demasia dizer que muitas pessoas que não eram gaúchas, como eu, sentiram sua perda de forma mais profunda que eu mesmo naquele momento; realmente, à época, com 17 anos, embora admirasse a sua obra, não tinha tanta idéia assim de sua verdadeira dimensão. A guria que começou timidamente a cantar no Clube do Guri, na Rádio Farroupilha, apresentado por Ary Rego, e no programa Maurício Sobrinho, na Rádio Gaúcha, nos anos 50 e início dos 60, foi certamente a artista gaúcha que obteve maior empatia com o público brasileiro em geral, a ponto de alguns “empedernidos” a acusarem de dar as costas à gauchada, o que não nos parece ser procedente. Com efeito, a acusação não é consistente, mesmo porque, conforme demonstramos em um especial dedicado a ela em nosso programa “Paralelo 30”, veiculado na Rádio Buzina do Gasômetro (http://www.buzinadogasometro.com.br), Elis gravou um número considerável de compositores gaúchos, tais como Eleu Salvador, Paulo Ruschel, Alberto do Canto, Geraldo Flach, Sérgio Napp, João Palmeiro, Raul Ellwanger, Jerônimo Jardim-Ivaldo Roque, Paulo Ruschel, Luiz Mauro, Mutinho-Bidu, Jaime Lubianca, Lupicínio Rodrigues-Alcides Gonçalves, Paulo Coelho-Plauto Machado. Sem embargo, Elis, ainda que involuntariamente, deu algumas “pisadas na bola”, que deram certa “consistência” à lenda quanto ao seu desprezo para com os gaúchos, embora, como se disse, não haja efetivo fundamento para tal tipo de conclusão. Em 1967, por exemplo, foi marcada uma entrevista coletiva pela tarde para a imprensa em uma casa noturna; ocorre que o agente de Elis tinha uma rusga com o proprietário desta casa; e Elis, ingenuamente, misturando “alhos com bugalhos”, não compareceu, o que, naturalmente, desgostou a imprensa local, que “botou a boca no trombone” em seus respectivos veículos. Às vezes, o jeito sincero e escrachado da cantora expressar-se também não contribuía muito em seu favor, tal como na vez em que, ao ser questionada pela imprensa acerca de sua lealdade à terra natal, devolveu perguntando mais ou menos o seguinte: se as pessoas que lhe cobravam por ter “abandonado o Rio Grande” queriam o que, que ela gravasse só músicas de CTG (Centro de Tradições Gaúchas) para demonstrar sua afeição pelo RS? Há também relatos de colegas de colégio e amigos com certa intimidade de, que ela já tinha, portanto, antes de se radicar no centro do país, de que ela não gostava de Porto Alegre. Mas, naturalmente, tal tipo de informação deve ser vista com a devida prudência, e contrastada com os fatos. O certo é que Elis sempre incluía a capital gaúcha em suas turnês, geralmente incluindo vários dias de apresentação, e inclusive, em 1977, deu a primazia a Porto Alegre para a estréia do show do disco “Transversal do Tempo”.

Entendo que há inúmeros aspectos que podem ser apontados como substrato para a tamanha admiração granjeada pela cantora ao longo de sua carreira: a intensidade com que se envolvia na produção de seus shows, na escolha do repertório, em sua preocupação com o aspecto cênico (não raro agregando elementos coreográficos, e carreando para seus shows grupos de dança, direção teatral, cenários bem elaborados, etc.), na riqueza dos arranjos, na qualidade dos músicos de sua banda de apoio, etc. Mas o que, para mim, é mais significativo, é o fato de que Elis, diversamente do que geralmente a maioria das cantoras fazem, procurava adaptar sua interpretação às exigências da própria canção, buscando ambientá-la na roupagem em que melhor se mostrasse, na ênfase que lhe fosse mais fiel. Vale dizer, com Elis não era a música que se adaptava ao estilo da cantora, mas a cantora que se adaptava à música. Assim, curiosamente, Elis conseguiu agregar numa mesma cantora diversos estilos de interpretação, conforme o feeling que sentia quanto à melhor formatação que a música deveria obter. Seus shows, neste sentido, são reveladores da verdadeira “montanha russa” emocional da cantora, que resultava em grandes variações na ênfase da interpretação, abarcando desde a maior suavidade e sutileza possíveis, até a mais gradiloqüente performance. E tais alternâncias ocorriam não apenas ao longo de um show, mas, às vezes, inclusive durante uma mesma canção. É por isso que nos referimos a Elis, no título, fazendo um pequeno jogo de palavras, não como “Essa Mulher” (título de um de seus discos), mas como “Essas Mulheres”. De fato, diante de sua grande versatilidade e amplitude de recursos técnicos – e, ainda que em forma de licença poética-, pode-se dizer que Elis reunia em si várias cantoras ao mesmo tempo, o que lhe permitia transitar praticamente por qualquer estilo musical, tirando o sumo do sumo que cada canção podia render. É por este motivo que, no meio musical, muitas vezes é dito que se um cantor ou uma cantora interpretam músicas gravadas por Elis, teve “muito peito” e personalidade, uma vez que as interpretações da gaúcha são consideradas “definitivas”, e colam-se àquelas músicas como um verdadeiro carimbo pessoal e intransferível. E é por essa razão, reputamos nós, que não é tão comum encontrar regravações de canções que foram gravadas por Elis.

A lembrança da cantora pelo público gaúcho de forma alguma arrefece. Tanto é assim que um busto foi inaugurado no IAPI, seu bairro de nascença, e agora, semana passada, uma estátua em homenagem a ela foi erigida junto à Usina do Gasômetro. O que, convenhamos, não é pouco.

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