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Esse tal de Rock Gaúcho

por Rogério Ratner

Quando fui divulgar o lançamento do meu segundo CD no “clássico” programa “Radar”, da TVE, comandado na oportunidade por Léo Felipe e Tatiana Foster, estava também no estúdio a banda brasiliense Sapatos Bicolores, que foi tocar ao vivo e gravar uma entrevista. Antes de o programa ir ao ar, bati um papo rápido com o simpático guitarrista e cantor da banda, André Vasquez, que, por sinal, é gaúcho de origem, e está radicado no planalto central. Ele falou-me, na ocasião, da grande influência que a banda tem do rock gaúcho. Por outro lado, em artigos publicados no maravilhoso site “Senhor F”, Fernando Rosa (também gaúcho, e morador de Brasília), Flávio Sillas Jr. e Leonardo Bomfim (carioca, mas radicado em Porto Alegre, a quem tiver o prazer de conhecer pessoalmente, por ocasião da entrevista para o programa “Congestão”, do pessoal da Famecos da PUC,  produzido então pelo grande Rafael Pesce e  equipe na RadioFam) apontam para diversas  bandas de das mais variadas regiões do país que sofreram ou sofrem a influência do rock gaúcho em seus respectivos trabalhos.
A questão que surge, a partir daí, é a de estabelecer em que consiste, de forma mais precisa, esta “categoria” específica em que se constitui o “rock gaúcho” a que se referenciam estes e outros músicos e especialistas de diversas regiões do Brasil; dito de outra forma, qual seria a “essência”, quais  os aspectos universais que perpassariam trabalhos tão diversos, como os das várias bandas corriqueiramente citadas por artistas e articulistas pelo país afora? O que, mais exatamente, criaria esta identificação do “rock gaúcho”, na acepção aludida, como um elemento próprio e específico, que inclusive tomaria um sentido autônomo, distinto, e até certo ponto, exclusivo, de forma a consolidar um extrato específico, que diferenciaria este “rock gaúcho” da referência geral  de que o “rock gaúcho” é o rock feito pelos artistas do Rio Grande do Sul que, de uma forma ou outra, tomam este referencial na elaboração de seus trabalhos musicais, seja num sentido preponderante ou ocasional? Ora, a forma como é utilizada neste âmbito a expressão “rock gaúcho” permite denotar que se trata de um conceito bastante singular, particular, delimitado, a indicar um novo sentido ao termo, a excluir de seu espectro diversas outras manifestações musicais que, em maior ou menor grau, também têm sua confluência com  a estética roqueira. Mas, repise-se, o que efetivamente delimita o “conceito” no sentido em que é utilizado em tal contexto?
Penso que a questão não é simples e nem de fácil solução. Neste sentido, apenas nos ocorre ser possível indicar alguns aspectos que, imaginamos, possam contribuir para explicar a formação desta “liga”, de forma a autonomizar a nomeação deste “rock gaúcho” estratificado como categoria conceitual, dentro da produção roqueira gaúcha mais geral, na construção a que nos referimos.
Para melhor situarmos a origem da questão, nos parece, é necessário identificar exatamente que elementos teriam engendrado a sua própria possibilidade de surgimento. Como sabemos, a efetiva propagação do rock gaúcho para o restante do Brasil ocorreu fundamentalmente nos anos 80. Antes disso, foram poucas as bandas e artistas gaúchos de rock  que conseguiram “atravessar o Mampituba” (rio que faz a divisa entre o RS e SC). De fato, foi na década de 80, especialmente a partir do lançamento dos discos “Rock Grande do Sul” e “Rio Grande do Rock”, e alguns outros registros lançados nacionalmente, além de discos solo de bandas presentes nas mesmas coletâneas e outras, que a propagação em nível nacional do rock feito no Rio Grande do Sul efetivamente se realizou. Neste ínterim, as bandas que mais se destacaram nacionalmente, ao ensejo, foram o TNT, os Replicantes, o De Falla, os Garotos da Rua, os Engenheiros do Hawaii, o Nenhum de Nós, os Cascavelletes, Júlio Reny e Expresso Oriente, Joe, e, em um grau menor, a Banda de Banda, Dedé e os Ajudantes, Os Eles,  Justa Causa,  Apartheid,  Prisão de Ventre, dentre outras.
Ocorre que, diante do verdadeiro “enxugamento” que as grandes gravadoras promoveram nos lançamentos de discos de rock nacional a partir do início dos anos 90 – o rock perdeu mercado, ou, ao menos, assim consideraram os produtores das “majors”, que preferiram apostar mais as suas fichas em gêneros populares de enormes vendagens, como o pagode, a axé music e o sertanejo -, a maioria destes trabalhos ficou no limbo. Isto, naturalmente, não ocorreu apenas em relação às bandas/artistas do sul, correspondendo a um quadro mais geral que se abateu sobre a produção roqueira nacional dos anos 80. De fato, foram poucas as bandas/artistas revelados nos anos 80 que conseguiram manter seus trabalhos em nível de mainstream nas décadas seguintes. Desta situação conjuntural resultou,  em determinados casos, e ao menos como um das razões a apontar,  na inativação de algumas daquelas bandas, ou mesmo na defecção de alguns de seus componentes em suas formações, ou, ainda, na “regionalização” do seu foco de atuação (no sentido de que o mercado principal a que passaram a se dedicar voltou a ser o do RS).
Assim, nos anos 90, foram poucas as bandas gaúchas que obtiveram a atenção de grandes gravadoras. Da leva de bandas dos anos 80, praticamente apenas os Engenheiros do Hawaii se mantiveram neste mainstream nacional, mais exatamente na figura de Humberto Gessinger, uma vez que os componentes da banda foram se alterando ao longo do tempo. O Nenhum de Nós também pode ser apontado, neste sentido, uma vez que a banda, apesar de  “regionalizar-se” a partir do final dos anos 90, conseguiu manter um considerável espaço no mercado musical nacional. Das bandas que surgiram bem ao final dos anos 80 ou já nos anos 90, basicamente conseguiram lançar discos por grandes gravadoras de âmbito nacional a Rosa Tatooada, os Papas da Língua, a Cidadão Quem, etc. Mas, mesmo alcançando esta condição, estas bandas não tiveram a devida atenção das respectivas grandes gravadoras a que se vincularam naquele período, de forma que, ao menos naquele momento, a repercussão nacional de seus trabalhos não chegou a alcançar o chamado grande mercado da música brasileiro.
Nesta medida, o que se desenhou é que as bandas que se mantiveram unidas, ou mesmo os ex-integrantes da “safra” do rock gaúcho dos anos 80 lançados nacionalmente que iniciaram uma carreira solo, e, ainda, as bandas que se articularam a partir de ex-integrantes de algumas daquelas bandas antes apontadas, obtiveram alguns espaços em nível nacional nos anos 90 especialmente a partir de sua vinculação com as chamadas gravadoras independentes, que surgiram em grande profusão naquele período, num esquema mais alternativo, ou até mesmo indie. Algumas destas gravadoras também funcionaram como selos vinculados a majors, de forma que, de um certo modo, pode-se considerá-las como uma espécie de “atalho”  para a ligação com as grandes gravadoras; o problema é que não necessariamente os trabalhos divulgados por estes selos receberam o merecido esforço na divulgação por parte das respectivas grandes gravadoras a que se vincularam (mas isto, em verdade, é bom que se lembre, também comumente acontecia com boa parte dos artistas diretamente vinculados às majors, ainda nos anos 80). Assim é que algumas bandas gaúchas lançaram seus discos por gravadoras independentes do centro do país, vinculadas ou não a majors, tais como a Tinitus, de Pena Schmidt (caso da Off the Wall e Wander Wildner), e a Banguela – dirigida por Carlos Eduardo Miranda, o Gordo Miranda, ex-integrante das bandas gaúchas Taranatiriça, Urubu-rei e Atahualpa e os Panquis, e que hoje é um dos jurados do programa “Astros”, do SBT, e que lançou a Graforréia Xilarmônica e a Maria do Relento, e, já vinculado à  Trama, os  Cowboys Espirituais. A Ultramen, por sua vez, lançou um CD pela gravadora Rock It, de Dado Vilallobos, guitarrista da Legião Urbana. Outras bandas lançaram seus discos por gravadoras que, embora tivessem uma estrutura maior do que os chamados selos indie, não conseguiram consolidar os respectivos projetos comerciais a longo prazo, em grande parte em decorrência da própria crise na vendagem de CDs decorrente da pirataria desenfreada e da veiculação livre de música na internet, mas também por outras questões de organização interna. É o caso da Paradoxx, que lançou discos do Nenhum de Nós, Acústicos e Valvulados, Nei Van Sória (ex- TNT e Cascavelletes), Nei Lisboa, Solon Fishbone, Jah Mai, dentre outros, inclusive já nos anos 2000; e também da Abril Music, que lançou o único CD da banda Vídeo Hits. Outros exemplos poderiam ser apontados, naturalmente. De outro lado, diversas bandas lançaram CDs por gravadoras locais tais como a RBS Discos (que, posteriormente, lançou o selo Orbeat) e a ACIT (selo Antídoto), e utilizaram a popularidade alcançada aqui no sul a partir deste impulso para fazer incursões em nível nacional, o que notadamente ocorreu já nos anos 2000, tendo como principais expoentes deste processo as bandas Papas da Língua,  Nenhum de Nós, Comunidade Nin-Jitsu, Cidadão Quem, a banda de reggae Chimarruts, o cantor Armandinho, etc. Este caminho “inverso” para chegar ao sucesso – a contratação por majors como decorrência de uma ampla repercussão regional em rádios e shows em face do trabalho de selos locais, ao invés da “descoberta” das bandas daqui ainda quando iniciantes, por parte das gravadoras do centro do país – é um fenômeno muito interessante, que merece ser melhor aprofundado, como uma das recentes faces da relação entre o chamado “mercado local” e  “mercado nacional” da música, ao menos em relação ao rock gaúcho. Nos anos 2000, a Banda Cachorro Louco foi uma das poucas que “estourou” nacionalmente no esquema tradicional de contratação por uma grande gravadora, com a particularidade de que, antes de sua contratação por um selo maior, lançou seu primeiro CD de forma independente encartado na revista “Outra Coisa”, de Lobão, após recusar o esquema proposto por um produtor da Antídoto, de modificar um pouco a sonoridade da banda.
Mas retomando o nosso enfoque, o que constituiria o núcleo deste conceito de “rock gaúcho” stricto sensu, ao que se pode inferir,  seria o amálgama de influências de bandas tais como o TNT, os Cascavelletes, o De Falla, os Replicantes, a Graforréia Xilarmônica, e dos trabalhos solo de  ex-componentes  destas formações (caso de Charles Master, Júpiter Maçã, Frank Jorge, Flu, Wander Wildner, Marcelo Birck, dentre outros), Colarinhos Caóticos,Cachorro Grande, Ultramen, Bidê ou Balde, Júlio Reny – ou seja, o trabalho de bandas e artistas que, em sua maioria, já estiveram, ao menos em algum momento de sua trajetória, e numa ênfase de maior ou menor grau, no mainstream, mas depois passaram a atuar num esquema bem independente -, além de outros artistas muito atuantes na cena independente e alternativa gaúcha (alguns desde os anos 80, outros a partir do anos 90), tais como Plato  Divorak, Jimi Joe, The Darma Lovers, etc.,  e as então novas bandas da cena alternativa dos anos 2000, tais como  Efervescentes, Identidade, Damn Laser Vampires, Superguidis, que inclusive participam de inúmeros festivais independentes pelo Brasil afora (evidentemente, estamos apontando apenas alguns nomes, à guisa de exemplo).
Como vê-se, neste caso, ficariam de fora do conceito deste “rock gaúcho” stricto sensu, bandas de grande sucesso e representatividade, tais como Engenheiros do Hawaii, Papas da Língua, Nenhum de Nós, Cidadão Quem, Fresno, e outras que seguem uma estética de “pop rock” considerada mais convencional. Estes, então, fariam parte do “rock gaúcho” lato sensu, ou seja, de um espectro mais amplo de artistas ligados, em maior ou menor intensidade, ao rock, dentro de um conceito mais largo deste.
Entretanto, centrando fogo em nosso ponto principal, o que exatamente têm em comum bandas de sonoridade tão diversa, tão particular, de influências variadas, tais como as que são associadas a este “rock gaúcho” stricto sensu? Com efeito, os Replicantes sempre foram uma banda punk, e Wander Wildner, em sua carreira solo, acrescentou elementos considerados “bregas” a esta estética, ou seja, elementos originários da jovem guarda e outros desprestigiados pela “alta cultura”, tornando-se, numa alegoria genial, ele próprio cool e moderno. Já o TNT tem sua origem ligada ao rockabilly e ao rock convencional, stoneano, embora também apresente um certo “descuido” nos vocais (ao menos nas gravações originais da banda, que não se repetem, diga-se de passagem, nas suas investidas mais atuais, e na atuação solo de Charles Master e Nei Van Sória, que são bem mais “pop”), que parece proposital, apontando, talvez, para alguma influência do punk, ainda que subliminar. Os Cascavelletes, por sua vez, parecem ter radicalizado a estética do TNT, tornando-a ainda mais irreverente e “suja”, do ponto de vista musical. O De Falla, por sua vez, cruza elementos do punk com outros da black music, especialmente do “funk rock psicodélico” (tipo Funkadelic, Parliament, etc.), e, mais recentemente, do próprio funk carioca. A Graforréia, a seu turno, mistura jovem guarda, milonga, atonalismos, elementos punk, e uma série de outras influências. E assim por diante, em relação a uma ampla gama de artistas/bandas identificadas com este conceito de “rock gaúcho” a que nos referimos.
Aí parece repousar a maior dificuldade de compreensão da identidade conceitual deste “rock gaúcho” stricto sensu, ao menos à luz de uma análise mais objetiva dos elementos estéticos envolvidos. Mas esta dificuldade na análise da questão, contudo, não pode de forma alguma, naturalmente, implicar na desconsideração de propriedade e até da objetividade deste conceito particular de “rock gaúcho”, que povoa o imaginário roqueiro nacional, e especialmente o imaginário daqueles artistas e fãs ligados à cena alternativa.
Mesmo que se sujeitos a “chuvas e trovoadas”, pensamos não ser impossível apontar alguns elos comuns a  todos estes trabalhos. É claro que, ressalvando sempre, é provável que nem todos venham a concordar com a propriedade e a pertinência destes aspectos, e, muito mais notadamente, de seu caráter universal. Por isso, e já levando em consideração estes eventuais senões, buscaremos apontar alguns aspectos, que, em nossa visão, poderiam configurar-se como de caráter universal ao conjunto de trabalhos musicais a que estamos nos referindo.
Em primeiro lugar, um elo comum bastante evidente que poderia ser apontado, neste sentido, é, naturalmente, a base roqueira, tanto musical, quanto comportamental, que por óbvio cria um lastro ancestral a toda esta produção. De outro lado, o que é mais aparente, como ponto comum entre, ao menos, grande parte destes  trabalhos, é uma influência – em maior ou menor grau, em cada caso, evidentemente – da estética punk, ainda que alguns elementos estéticos daí originados sejam isolados ou selecionados por determinadas formações, inviabilizando uma identificação  totalizante e imediata com este estilo. Aliás, não apenas, mas também para além do aspecto meramente estético, parece certo que o espírito do movimento punk do “faça você mesmo” e do “vamos meter a cara e fazer do jeito que queremos, e  o resto que se exploda”, é uma das molas que engendra não apenas esta produção em termos sonoros, mas especialmente em termos da atitude dos roqueiros gaúchos assim identificados frente ao público, a pautar a seu relacionamento com o chamado  mercado musical. O que, por outro lado, não significa necessariamente, ao menos de forma absoluta, que, comercialmente falando, haja um radicalismo por parte da maioria das bandas e artistas a que nos referimos, no sentido de repudiar a possibilidade de passar ao mainstream, desde que a indústria da música respeite, neste processo, a sonoridade e a proposta dos respectivos trabalhos. Ou seja, há uma radicalidade dos artistas na defesa de sua proposta de trabalho e do som formatado e próprio dos grupos, nas relações que eventualmente mantém ou possam vir a manter com as grandes gravadoras, dos quais, na grande maioria dos casos, não abrem mão; mas não há, ao menos na maioria dos casos, uma postura de isolamento ou de recusa em participar de um mercado mais amplo, quando as condições contratuais são respeitosas para com a identidade e o estilo do grupo. Também caberia apontar alguma influência da estética “lo-fi”, que, em termos locais, poderia  ser  traduzida pela expressão bem “bomfiniana” de  “chinelagem”, ou seja, o som descuidado, seja na gravação, seja na interpretação, feito de uma forma até deliberada – o que também pode se confundir, em certos casos, com a influência do punk; isto também parece corresponder a um elemento a ser considerado, muito embora tenha-se de admitir que algumas gravações e trabalhos associados pela crítica e pelo público ao “estilo” a que nos referimos tenham boa qualidade, tanto em termos do cuidado técnico na coleta, mixagem e masterização do som, como inclusive em relação à própria execução instrumental e ao canto. A psicodelia, por outro lado, também parece ser um aspecto comum a diversos destes trabalhos, ainda que ela própria, em si, como conceito estético-musical, seja um tanto difusa e de difícil delimitação, por conter inúmeras vertentes. A influência do rock dos anos 60, seja em termos de estilo musical ou sonoridade, ou até visual, também vem sendo sempre apontada, mas é evidente que nem todas as bandas citadas têm este referencial. Em termos de temática e crueza das letras, muitas vezes tais artistas/bandas apresentam um nível contestatório ou de irreverência com “octanagem” bem superior ao que é mais comum no chamado rock convencional, o que também é um ponto de contato que se poderia registrar. Do ponto de vista comportamental, também pode-se, na maioria dos casos, entrever uma radicalidade superior, seja em nível de atitude pessoal, seja na forma como a banda ou o artista  mostra-se ao público, na comparação com os artistas/bandas considerados mais “certinhos”; mas, por óbvio, tais considerações não devem nos levar a crer, ao menos a priori, que se trate de uma realidade absoluta, pois, como sabemos, há casos em que os artistas que assumem uma estética musical mais convencional, em sua vida privada, ou até na artística, muitas vezes  adotam comportamentos não convencionais, e também ocorrem casos de artistas “alternativos” que, no aspecto de sua vida pessoal, mantêm um estilo mais convencional. Além disto, o fato de muitos destes artistas/bandas valerem-se de um circuito alternativo de bares e espaços culturais parece engendrar outro ponto de contato, muito embora também deva-se ressaltar que não exista, de um modo geral, e pelo menos na maioria dos casos, recusa dos mesmos em se apresentar, eventualmente, em locais que também costumam abrigar uma música mais convencional.
A questão de fundo, e que nos parece crucial, é que esta categoria do “rock gaúcho” stricto sensu, muito mais do que um conceito que se ampara em uma bem delimitada conjunção de elementos estéticos que perpassa os diversos trabalhos musicais que lhe são associados, dá-se no plano simbólico. Falando de outra maneira, as características principais que parecem informar a associação em questão, a ponto de esta haver se constituído, ainda que informalmente, em um escaninho específico e particular dentro de uma  conceitualização mais ampla da expressão “rock gaúcho”, não estão ligadas necessariamente ao fato de a banda/artista estar ou não vinculado a uma grande gravadora, ou mesmo a algum elemento sonoro ou temático que seja comum e indelével a todos os trabalhos, ou, ainda, ao maior ou menor nível de “loucura” no plano da vida privada ou na forma de se apresentar ao público. O que parece solidificar a associação destes artistas/bandas, a ponto de podermos cogitar de um “rock gaúcho” stricto sensu, é o estranhamento ou rebeldia dos mesmos frente ao “cânone”, compreendido este como o “pop rock” mais convencional, ao menos em algum aspecto. Este estranhamento ou rebeldia, em sua palpabilidade, parece ser sempre cambiante, de banda para banda, de artista para artista, mas, no aspecto filosófico, se faz presente e se transforma em um verdadeiro fio condutor que perpassa toda esta produção. Neste passo, o estranhamento ou a rebeldia frente ao cânone pode estar, em determinado trabalho, na temática das letras; em outro, no timbre de voz ou no jeito de interpretar do cantor/vocalista; em outro, na execução instrumental, deliberadamente desleixada; em outro, na mistura de elementos musicais que, embora façam parte de forma definitiva do arsenal de vertentes do rock, acumuladas ao longo da já considerável tradição do gênero, não correspondem, ao menos no momento contemporâneo, ao referencial da música que faz mais sucesso e é mais convencional, ou, ainda, na apropriação de elementos incomuns a este âmbito; em outro trabalho, ainda, na conjugação de alguns destes aspectos,  ou até de todos ao mesmo tempo.

Sem dúvida, o fato de os artistas/bandas mencionados (claro que são apenas alguns exemplos, os mais notórios) como pertencentes ao “rock gaúcho” stricto sensu terem ensejado no imaginário roqueiro nacional uma associação própria, específica, criando um escaninho muito particular, embora não especificamente nominado, deve-se, não apenas ao fundamental trabalho de divulgação de diversas bandas gaúchas via grandes gravadoras, nos anos 80, mas também  a uma incansável força de vontade pessoal e honestidade artística, aliada a grandes doses de criatividade, por parte de artistas ligados a estas mesmas bandas, ou de seus ex-integrantes, nas respectivas carreiras solo, mesmo nos períodos em que atuam/atuaram sem o respaldo do mainstream, o mesmo valendo para outros artistas/bandas, ainda, que sempre gravitaram no underground. Também deve ser ressaltado o verdadeiro esforço coletivo que envolve, além dos músicos – que demonstram um considerável nível de comunhão de esforços -, diversos  produtores musicais obstinados  e donos de bares, sensíveis e atilados a este mercado independente, tanto da capital gaúcha, como do interior do Estado. A estes soma-se a fundamental contribuição de diversas emissoras de rádio, jornais, sites, blogs, que contribuem decisivamente para a vitalidade da cena.
A circunstância da consubstanciação de um verdadeiro  significado particular da expressão “rock gaúcho”, no contexto aludido, indiscutivelmente, é um grande mérito dos artistas/bandas a que nos referimos e, naturalmente, a tantos outros que não foram indicados por absoluta falta de espaço.
Outrossim, reputamos que este conceito particular de “rock gaúcho”, que é perfeitamente concebível, é totalmente compatível com a circunstância de haver, no RS, uma cena roqueira que, a exemplo do que acontece no restante do país, apresenta as mais variadas influências e vertentes. De fato, assim como ocorre pelo Brasil afora, verificam-se no universo do rock gaúcho trabalhos de bandas e artistas relacionados ao rock progressivo, ao heavy metal (em suas inúmeras configurações), ao punk, à black music, ao blues, à vanguarda (erudita ou popular), ao reggae, ao pop rock, à MPB, e ao que mais for, apontando para a existência de uma cena das mais ricas, em termos de vitalidade, diversidade e qualidade, de nosso país.

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Um comentário sobre “Esse tal de Rock Gaúcho

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