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O Clube do Guitarrista Gaúcho

O Clube do Guitarrista Gaúcho

O Clube do Guitarrista Gaúcho

                                        Por Rogério Ratner

Nos anos 80, em um “misterioso” sobrado que, se não me engano, ficava na descida da rua Barros Cassal, perto da Independência (do outro lado da avenida, na baixada em direção à Osvaldo Aranha, na quadra contígua à esquina onde fica o bar Garagem Hermética), funcionava o lendário “Clube do Guitarrista Gaúcho”. Trata-se, até onde sei, da primeira escola “moderna” para guitarristas de Porto Alegre. Mas ali também davam aulas de bateria, baixo e outros instrumentos. 

Não é que não houvessem vários professores de violão e de guitarra na cidade à época. Eu mesmo (que diversas vezes troquei de professor, em minha trajetória errática como aluno, até chegar à conclusão de que o problema não estava nos mestres, mas em mim, que sou um baita preguiçoso pra fazer exercícios e escalas), posso  testemunhar que haviam muitos professores/escolas no mercado.

Contudo, nada se comparava ao Clube do Guitarrista Gaúcho, até pela sua “mística”. Como falei, o Clube funcionava numa casa antiga de dois andares, de fachada meio  “rococó”. Quando eu subia as escadas, e adentrava em suas dependências, ficava sempre com receio de pisar no chão de madeira, pois o mesmo era composto de tábuas velhas, que me pareciam poder “afundar” a qualquer momento . Havia a sala em que eram dadas as aulas de bateria, e outras duas destinadas a guitarristas e baixistas. O Clube era capitaneado pelo Zezé, uma “figuraça” clássica do rock gaúcho. O Clube me foi recomendado por dois colegas de aula do colégio que já estudavam lá, o Giba Skolnicov (que integrou como guitarrista a banda V-8, a qual gravou uma faixa no clássico LP “Porto Alegre Rock”, do selo Pialo, em 1988), e Joel Faerman, que estudava bateria, e hoje é piloto de aviões de rotas internacionais.

Primeiramente eu tive aula com o Éwerton, que era tri gente fina e excelente músico. O problema é que eu ainda tava no be-a-bá, e quando ele ia me mostrar como se fazia uma coisa no violão, logo ele emendava com um monte de improvisos, ficando meia-hora “viajando” no som, misturando escalas com harmonia, enfim, “destruindo” no instrumento, e a aula ficava dispersa, ao menos pra mim.  Eu só podia ficar ali olhando e babando, e pensando que, perto do cara, eu era “maneta”. Claro que ver que eu não tocava um milésimo do que ele desempenhava não fez muito bem pro meu ego, então, depois de algum tempo, não sem alguma angústia, falei com o Zezé que queria ter aula com ele próprio. E assim foi feito, ou melhor, quase. Na verdade, o Zezé tinha um método muito heterodoxo de magistério: geralmente, o que ele fazia era passar alguma coisa (geralmente bem difícil, é claro) pro aluno praticar, e simplesmente “sumia do mapa”, só voltando no fim da aula, para “tomar” a lição do aluno. E geralmente eu levava “bomba” quando ele voltava, mesmo tendo tentado fazer aquilo por mais de meia-hora. O que ele fazia nestes intervalos eu nem sempre sabia, mas diversas vezes pude flagrá-lo indo jogar bola na redenção, não raro acompanhado de todo “staff” do Clube, fato, aliás, bastante corriqueiro. Provavelmente, no mais das vezes, o Zezé estava apenas em uma das dependências do imóvel, trabalhando no esmeril ou lixando e polindo, já que estava  construindo uma guitarra com braço de alumínio, esculpida por ele próprio, que mostrava com orgulho pra todo mundo. 

Uma ocasião que ficou particularmente gravada na minha memória foi a de um um dia de inverno bem frio, em que cheguei para a aula pelas nove da manhã,  apertei a campainha e ninguém atendeu. Então apertei outras vezes e nada. De repente, num acesso de raiva, comecei a apertar freneticamente, mas mesmo assim não aconteceu nada, não havia “alma viva”. Então, mais ou menos depois de uma meia-hora, conformei-me de que realmente não havia ninguém, que não ia ter aula naquele dia, e decidi sair fora. Foi só eu botar o pé pra fora da soleira da casa que levei na cabeça uma bolinha de papel. Quando olhei pra cima, o Zezé tava na sacada do segundo andar, bem sério e “puto da cara”, como se estivesse com toda a razão, e ainda teve a cara-de-pau de dizer, “Pô, qualé, tu apertou 23 vezes, não te fraga?”. Incrível, o cara ficou contando quantas vezes eu apertei a campainha. Não preciso dizer que eu é que tive que pedir desculpas, pra quebrar o gelo, e não sabia onde me esconder, como se a culpa fosse minha. Que sarro, o cara é a maior figura.

Imagino que os demais alunos do Clube devam ter muitas histórias engraçadas e legais pra contar sobre aquele tempo, especialmente sobre o Zezé. O Zezé, a par de suas excentricidades (que, aliás, todo músico tem), e a bem da verdade, era uma figura muito divertida e querida pelos alunos, e é  um dos melhores guitarristas já surgidos na história do rock do RS. Tocou em várias bandas importantes do rock gaúcho, tais como  “Câmbio Negro” e “O Espírito da Coisa”, dentre outras, sempre cercado de “cobras”. Aliás, a famosa Kombi da “Câmbio Negro” tava sempre estacionada do outro lado da rua, bem na descida da lomba. Lembro também de ter visto o Zezé tocar guitarra baiana em um baile de carnaval, numa banda que era de seu pai (que também é músico), no saudoso “Circo Escaler Voador”, que então estava localizado ao lado do Gigantinho, e que abrigou um monte de shows legais. O Zezé, é claro, simplesmente “destruiu”, e roubou a cena no tal baile (tá certo que eu e o meu amigo fomos lá mais pra azarar a mulherada, mas o show que o Zezé deu valeu o ingresso, ainda mais que não “pegamos” nada).  

Brincadeiras à parte, a verdade é que, tal como falei no início, o Clube foi uma das primeiras escolas de música de Porto Alegre a trabalhar com métodos mais modernos e aprofundados de ensino, e com uma linguagem e enfoque mais voltado/direcionado ao rock e ao jazz, o que era difícil de encontrar na época. Então os professores do clube, todos excelentes músicos, ensinavam as mais diversas escalas, os modos gregos, as pentatônicas, etc., etc., e tudo mais que não era comum ouvir falar, e muito menos estudar, em outros lugares.  Só pra se ter uma idéia, no Palestrina, por exemplo,  usavam o famoso “Método Mascarenhas para violão”, mais velho que a minha Vó, e voltado só pra quem queria aprender violão clássico. O Clube contou, em sua equipe, com um time da pesada: Zezé, Éwerton, Deio Escobar, Thabba (bateria), entre outros “cobrões” da cena musical de Porto Alegre. Não tenho certeza se o Walter, com quem também tive aula posteriormente, em seu estúdio na rua Sofia Veloso, chegou a dar aula no Clube, mas lembro-me que ele fez parte de uma banda de jazz-rock junto com o Zezé.

Geralmente, quem estudava lá no Clube saía tocando muito bem, mas bem de verdade (menos eu, pelas razões que já apontei). Sem dúvida, foi uma escola que marcou época no cenário musical e roqueiro da cidade. Acredito que, possivelmente, a escola que surgiu um pouco depois, e que se poderia dizer ser mais ou menos no mesmo estilo (embora administrativamente mais organizada) é a Prediger. Mas hoje temos várias escolas com uma filosofia semelhante à do Clube em Porto Alegre, o que é muito legal, pois a galera tem várias opções bacanas pra estudar. Acho que, neste sentido, o clube foi pioneiro. 

Depois que deixei de ir às aulas, e passados alguns anos, alguém me disse que o clube tinha fechado, e desde então  eu nunca mais tinha ouvido falar do Zezé, até há duas semanas. Fui levar o meu filho na escola Ases, e batendo um papo  com o baixista da banda “Cross fire” e professor Sfinge Lima (outra figuraça clássica, super gente fina, que é sócio da escola, e de quem o meu filho é aluno), ele me disse que o Zezé anda tocando em uma banda de baile pelo interior do Estado, e agora tá atacando como tecladista. Mais uma mostra da enorme versatilidade do cara, de quem lembro, sinceramente, com muito carinho e respeito, e de quem espero que não fique magoado por eu ter contado essas passagens engraçadas. De fato, o Zezé é uma figura folclórica do rock gaúcho, e as suas histórias e ensinamentos como professor sempre vão ficar marcados na memória de quem teve o privilégio de conviver com ele.  

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Um comentário sobre “O Clube do Guitarrista Gaúcho

  1. Mauricio Gubert disse:

    velho… que massa… tb fui aluno y tb tomei pau nas escalas e exercícios ao ponto de migrar para as aulas de Baixo com o Luizinho (um puta baixo rickenbacker) com trastes largos… e o Zezé fazendo amplificadores e a sua guitarra com braço de alumínio no pedestal… coisa que nunca ví nem em tempos de internet… obrigado pelo resgate da história… forte abraço

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