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O Tropicalismo Gaúcho (parte 2)

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Para entender-se o surgimento da cena tropicalista no Rio Grande do Sul, é fundamental levar em consideração dois eventos que foram de suma importância para a música urbana local do final dos anos 60: os festivais produzidos e realizados por diretores do centro acadêmico da Faculdade de Arquitetura da UFRGS, em 1968 e 1969. O pessoal da Arquitetura já tinha tradição na organização de shows de grande porte, tais como os “Arquisamba”. O primeiro Arquisamba, realizado em 1965, no Salão de Atos da Reitoria da UFRGS, trouxe para Porto Alegre Baden Powell, Sylvia Telles, Edu Lobo, Tamba Trio e Aloysio de Oliveira; em 1966, quando o show foi realizado no cinema Cacique, vieram Chico Buarque, Nara Leão, Quarteto em Cy e Bossa Jazz Trio; o terceiro show, em 1967, também realizado neste cinema, contou com Oscar Castro Neves, Quarteto em Cy, MPB4, Sidney Miller, Vinícius de Moraes e os gaúchos do Adão Pinheiro Trio; o quarto, promovido em abril de 1968, teve Baden Powell, Edu Lopo, Gracinha Leporace, Oscar Castro Neves trio, Quarteto em Cy, Sidney Miller e Stanislaw Ponte Preta. E ainda houve um Arquisamba Tropicalista, que contou com Mutantes, Gal Costa, Os Brazões, entre outros. Havia, ainda, a participação de outros músicos gaúchos em tais shows. Os “Arquisamba” foram, em verdade, mostras de música ou festivais não-competitivos. Ademais, haviam continuamente “os pontos” ou rodas de violão nas dependências do centro acadêmico e da Faculdade de Arquitetura, bem como em seu entorno (inevitável evocar a “Esquina Maldita” e seus bares, no cruzamento das ruas Sarmento Leite e Oswaldo Aranha, que atraíam muitos músicos e admiradores, especialmente o pessoal universitário). Aliás, cumpre ressaltar que vários músicos importantes do cenário gaúcho da época estudaram na Faculdade de Arquitetura da UFRGS, tais como César Dorfman, Wanderley Falkemberg, Mutuca, Cláudio Levitan, entre outros. Nos anos 80, foi ali, em uma festa, que surgiram os Engenheiros do Hawaii, então estudantes de arquitetura. Já os Festivais da Arquitetura foram realizados na modalidade que estava então  consagrada no centro do país, com eliminatórias classificatórias, premiação, transmissão da TV e da Rádio Gaúcha,  enfim, eram festivais de cunho competitivo, apresentados no Salão de Atos da Reitoria da UFRGS. O evento foi denominado como “Festival Universitário da Música Popular Brasileira”, e teve duas edições. O Festival de 1968 teve feição bossanovista, e contou com artistas do centro do país, além de vários gaúchos. Vieram para Porto Alegre Paulinho Tapajós, Arthur Verocai, Beth Carvalho e Eduardo Conde, dentre outros. Foi lançado pela gravadora Philips um LP contendo as treze músicas finalistas, que foi gravado no Rio, sendo que os compositores e cantores daqui não participaram da gravação. Foram convidados para o registro sonoro artistas/cantores que estavam despontando no centro do país. Das canções finalistas/classificadas, que constam do LP, nove eram de gaúchos: “Você, por telegrama” (de Laís Marques, cantada por Joyce); “Quem vem lá” (também de Laís, cantada por Sônia Lemos); “A caminho de casa” (outra de Laís, intepretada por Magda); “Samba do Cotidiano” (de César Dorfman, cantada por Paulo Marquez); “Jogo de Viola” (primeiro lugar no festival, de João Alberto Soares e Paulinho do Pinho, cantada por Edu Lobo e Lucelena, que viria a ser a Lucina da dupla Luli e Lucina); “Canto do Encontro” (de Wanderley Falkenberg, cantada pelo “Momento 4”, do qual participava Zé Rodrix); “Canção do Entardecer” (também de Wanderley, cantada por Lucelena); “Fantasia Urbana” (de César Dorfman, cantada por Mércia); “Sim ou não” (de Raul Ellwanger, cantada por Junaldo). Outros gaúchos, que posteriormente ficariam conhecidos, também participaram das eliminatórias, tais como Geraldo Flach, José Fogaça (atual Prefeito de Porto Alegre) e Mauro Kwitko, dentre outros. Dos artistas “de fora”, cujas canções foram gravadas no LP, cumpre salientar “Domingo Antigo”, de Arthur Verocai e Arnoldo Medeiros, gravada no LP por Gal Costa.Já o Festival de 1969, do qual também participaram músicos do centro do país (tais como Joyce, Zé Rodrix, Nana Caymmi, Ruy Mauriti, Regininha, Danilo Caymmi, Eduardo Conde, e que contava  na comissão julgadora com nomes de peso como o maestro Júlio Medaglia e Solano Ribeiro), embora  também houvessem sido escritas e selecionadas músicas identificadas com a estética da bossa nova,  foi o palco privilegiado para o Tropicalismo, não somente feito aqui, mas também no centro do país. Houve, por parte dos Tropicalistas, uma atitude bastante iconoclasta, o que resultou em alguma confusão, inclusive com enfrentamento físico entre alguns dos músicos das duas “tendências”. O público também ficou muito mobilizado, sendo que parcelas de cada “torcida” (tropicalista ou bossanovista) vaiavam os representantes da estética “oposta”. Inclusive Joyce, ao se apresentar, foi brindada com o coro de “gostosa, gostosa”, só pra se ter uma idéia dos ânimos um tanto alterados do público. O Festival foi vencido pela música “Por Favor Sucesso”, do gaúcho Carlinhos Hartlieb, que foi acompanhado pelo grupo Liverpool Sound (do qual se originou o Bixo da Seda), o que credenciou-os a participar da final do IV Festival Internacional da Canção da Rede Globo, realizada no ginásio do Estádio Maracanã, no Rio. Trata-se reconhecidamente de uma canção tropicalista, tal como de resto o são as demais músicas constantes do antológico LP do Liverpool de 1969. Mas o grande happening foi proporcionado pela banda gaúcha O Succo, integrada então por Mutuca (vocal), Cláudio Vera Cruz (guitarra), Moka Lucena (guitarra) João Manoel Blattner (bateria), Chaminé (baixo), Eliana (vocal) e Renato Português (também no baixo) – a quem agregou-se Zé Rodrix e a Primeira Manifestação da Peste, de que trataremos logo a seguir. O “figuraça” do rock gaúcho Chaminé entrou no palco trajando ceroula e um penico na cabeça. Renato Português, a seu turno, teve a idéia de levar galinhas vivas, que soltou no palco. Mutuca soltava bolhas de sabão no palco, na Orquestra e no público. Além disso, os integrantes do grupo  jogaram talco nos músicos da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (que estavam acompanhando os concorrentes, tal como era praxe nos Festivais da Excelsior, Record e Globo). O Succo tocou a música “Nem só de graves vive o homem”, de Cláudio Vera Cruz e Chaminé, que, segundo Cláudio, era de inspiração surrealista. Também merece ser destacada a participação de um grupo formado por estudantes da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, o Regional Churubribas, que apresentou a música “As Brenfas”, e que, no happening, segundo a lenda, contava com uma escola de samba, da qual faziam parte a mãe do compositor e o motorista de táxi que os levou do aeroporto ao hotel, portando  estandartes dos doces “Mumu”, sendo que o figurino do cantor era um traje de “astronauta” com várias bolsas cheias de líquidos coloridos, as quais, quando pressionadas, espirravam os líquidos no palco e no público. Destacou-se também o grupo “A Primeira Manifestação da Peste”, capitaneado por Zé Rodrix (que depois faria parte do Som Imaginário e do trio com Sá e Guarabira, antes de sair em carreira solo e integrar o Joelho de Porco), que  interpretou a música “Dia Um” (que obteve a quinta colocação geral), de  Wanderley Falkenberg em parceria com Luiz Santana (estes classificaram também as canções “Somos Convidados”, “23 horas, apartamento 6” e “Quarentena), e também uma canção de Zé (“Copacabana me engana”). Além de Zé, Wanderley e Santana (estes dois tinham formado, à época, o grupo Arquivolante), a “Primeira Manifestação da Peste” contava com Ronaldo Tapajós  (primo de Paulinho) e sua esposa, Hildegard Angel (então esposa de Zé Rodrix), Giba-Giba (percussionista gaúcho que antes fizera parte do grupo Canta povo), Carlos Batera, Carlinhos (violão) e, ainda, o baixista Sidney e sua esposa. Esta Turma carioca, segundo Wanderley, por motivos que ele mesmo desconhece, veio dar nestes costados do Sul procurando um novo ambiente musical, com a idéia de levar uma vida hippie no sul. Zé Rodrix, após desistir da idéia da “vida hippie”, chegou a escrever uma coluna na Zero Hora durante um bom tempo, antes de voltar para o Rio.

Paralelamente, Hermes Aquino,  Laís Aquino Marques (a que nos referimos ao ensejo do Festival da Arquitetura de 1968, e que participou do festival em 1969 com a canção “Pela rua da Praia”, interpretada pelo conjunto O Bando, de SP, que tirou o segundo lugar) e Carlinhos Hartlieb estavam morando em São Paulo à época, e travaram contato com o poeta concretista Augusto de Campos, a quem visitavam freqüentemente, e com cujo incentivo contavam. Conviviam também com Tom Zé, o que rendeu inclusive algumas parcerias musicais, tais como a canção “Você gosta”, (de Tom e Hermes, gravada pelo próprio Tom, pelo Liverpool e pela banda Os Brazões) e “Distância” (de Tom, Laís e João Araújo, pai de Cazuza, que à época era diretor da gravadora RGE). Hermes classificou a música “Flash” (com arranjo magnífico do maestro Júlio Medaglia) em primeiro lugar na eliminatória paulista do IV Festival Internacional da Canção, de 1969, e Laís classificou em terceiro lugar “Sala de Espera” (parceria dela com Hermes, gravada pelo Bando). Em segundo lugar ficaram os Mutantes, com “Ando meio desligado”, e, em quarto, a música de Jorge Ben  “Charles Anjo 45”. Assim, participaram da final do IV FIC, no Rio, os gaúchos Carlinhos + Liverpool, Hermes Aquino e Laís Marques. Embora não tenham sido premiados na finalíssima, sem dúvida tais intervenções chamaram a atenção de gravadoras nacionais pela cena portoalegrense, tais como a RGE (que lançou dois compactos de Hermes) e a Equipe, que lançou o LP do Liverpool de 1969.

Carlinhos Hartlieb, aliás, começou sua carreira em 1964, formando um trio de bossa nova em que tocava contrabaixo, e que era integrado também por Hermes Aquino.  Morando em SP desde  1967, fez  trilhas sonoras para peças do Teatro da Universidade Católica  (TUCA) e para o Grupo Oficina de São Paulo, dirigido por José Celso Martinez Corrêa, e atuava também como músico em cena. A partir de 1972, realizou diversos espetáculos em teatros de Porto Alegre e do interior do Estado, alguns que inclusive eram “multimídia” (reunindo, além da música, elementos de dança, expressão corporal, teatro e artes plásticas). O primeiro, feito de forma mais convencional, chamou-se “Sempre é Assim”. Após realizar tal show, Carlinhos voltou para São Paulo para trabalhar em trilha do Grupo Oficina, mas em 1973 apresentou em Porto Alegre o show  “Toque”. Em 1975, apresentou o espetáculo “M’boitatá”, a partir de pesquisa que fez sobre o folclore gaúcho. Em 1976, montou o show “Sonho Campeiro”, também com inspiração folclórica. Em 1978, duas músicas suas integraram o clássico LP “Paralelo 30”, produzido pelo jornalista e produtor Juarez Fonseca  (que inclusive gentilmente nos disponibilizou diversas entrevistas que realizou, fundamentais para a elaboração deste artigo) na Gravadora Isaec, de Porto Alegre, inclusive sua mais conhecida canção, “Maria da Paz”. Carlinhos faleceu em 1983, de forma súbita e misteriosa na Praia do Rosa, em Santa Catarina. Deixou gravado um LP, “Um risco no céu”, lançado postumamente por iniciativa  de Juarez Fonseca, quando atuava como Coordenador de Música e Artes Cênicas da recém criada Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre (que bancou boa parte dos custos; aliás, este foi o primeiro lançamento discográfico da Prefeitura Municipal de Porto Alegre), que propôs a idéia ao produtor Ayrton dos Anjos (o famoso “Patinete”, apelido que lhe foi dado por Elis Regina). Este disco mereceu um caprichado relançamento em CD, com faixas bônus, sob  produção do próprio Juarez Fonseca. O disco é bem eclético, e contempla vários gêneros e ritmos, podendo, sem dúvida, ser considerado de influência tropicalista. Carlinhos foi um dos nomes fundamentais da história da música gaúcha, não apenas por sua figura agregadora e pelo seu talento, mas também pela sua atuação como produtor cultural. Nesta condição, Carlinhos dirigiu as famosas “Rodas de Som”, um projeto que durou cerca de dois meses em 1975, e que foi realizado no Teatro de Arena de Porto Alegre, abrindo espaço para muita gente nova (tal como Jimi Joe, Grupo Ensaio, etc.) que se apresentava junto com artistas consagrados (tal como o Bixo da Seda, que participou da primeira Roda), servindo tal iniciativa como inspiração para várias outras arquitetadas no futuro. Carlinhos também foi Diretor da Discoteca Pública Natho Henn.

Hermes Aquino, junto com Cláudio Vera Cruz, participou, antes dos festivais, dos Satânicos, do SOM 4 e da Banda do Programa de auditório da TV Gaúcha apresentado por Glênio Reis (GR Show). Depois da fase tropicalista, Hermes concluiu que o vanguardismo não lhe permitiria a divulgação ampla de sua música da forma que ele pretendia, e chegou a gravar um compacto com músicas “populares e românticas” que compôs, e que saiu pela RGE. De volta a Porto Alegre, em 1973, passou a fazer jingles para a Rádio Continental AM, virando também produtor do DJ Cascalho. Em 1975/76, foi uma das grandes atrações dos shows “Vivendo a Vida de Lee”, organizados por Júlio Fürst, também radialista da Rádio Continental, com a colaboração de Beto Roncaferro, entre outros. Nestes shows, Hermes foi acompanhado por Chaminé (baixo) e Lauro Ney (bateria). Tal visibilidade chamou a atenção da gravadora carioca Tapecar, que lançou um compacto seu, e, após, o primeiro LP, que contém a imortal e nada fugaz “Nuvem passageira”, além de “Matchu Pichu”, “Guantanamo”, entre outras canções antológicas. Este disco rendeu-lhe uma fama nacional imensa, especialmente pela canção “Nuvem passageira”, que todo o Brasil conheceu, ficando por meses em primeiro lugar nas paradas, inclusive do “Globo de Ouro” da TV Globo, além de figurar em trilhas de novelas. Este Lp, lançado em 1977, foi relançado em CD há alguns anos em uma tiragem pequena. Depois, Hermes foi contratado pela gravadora Capitol, que lançou o LP Santa Maria, de 1978. Houve um desentendimento entre o artista e a gravadora acerca dos rumos de sua carreira, e o contrato foi rompido pela empresa unilateralmente, o que representou um abalo para Hermes, que desde então não retomou sua carreira nos moldes anteriores. Foi lançado, ainda,  em 1979,  o compacto contendo as músicas “Esperança” e “Luzes da Cidade”, pela EMI-Odeon. Atualmente, Hermes, que é um dos melhores compositores/cantores da história da música gaúcha, segue fazendo jingles em Porto Alegre.

Laís Aquino Marques começou a cantar “oficialmente” em 1966, quando foi criado o grupo “Canta povo”, de que participou junto com Ivaldo Roque, Giba Giba, João Palmeiro, Sílvia e Mutinho. A canção “Canto de Chegar”, de Ivaldo e Palmeiro, foi gravada no LP do I Festival Sulbrasileiro da Canção, de 1967 (organizado pela Rádio e TV Gaúcha junto com o Sindicato dos Músicos, sendo realizadas a segunda e a terceira edição em 1968 e 1969, respectivamente), lançado pela gravadora gaúcha CSB Discos. Laís resolveu começar a compor ao ensejo do Festival da Arquitetura de 1968, e de cara classificou todas as três músicas que inscreveu para a finalíssima, estando todas registradas no Lp do Festival, como já referimos. Na época, Laís estava ligada à estética da Bossa Nova, sendo que, em 1969, já estava bem identificada com o Tropicalismo. Morando em São Paulo, Laís conheceu o maestro Rogério Duprat, com quem começou a trabalhar com jingles. Fez também a trilha sonora para um filme de Antunes Filho. Após ter dado um longo tempo em suas atividades musicais, em 1986 realizou o primeiro e único show solo em Porto Alegre. Sem dúvida, Laís é uma compositora importantíssima e que está inscrita na história da música popular gaúcha e brasileira. Aliás, ela foi uma das poucas compositoras tropicalistas no país.

O Liverpool (Sound), a partir da ida para o Rio, por ocasião do FIC, foi contratado pela gravadora carioca Equipe, que lançou em 1969 o LP da banda, contendo músicas de Hermes Aquino, Laís Marques, Carlinhos Hartlieb (a própria “Por favor Sucesso”, interpretada no Festival da Arquitetura de 1969), além de outras compostas pelo pessoal da Banda. O Liverpool foi criado pelo guitarrista Carruíra no IAPI, mesmo bairro de classe média baixa/operária onde nasceu e morou Elis Regina. Carruíra convidou os irmãos Mimi e Marcos Lessa, que tocavam na banda The Best, a se integrarem à banda. Mimi, por sua vez, chamou Fughetti Luz, que ficou como vocalista do Liverpool. Carruíra e Vico saíram da banda, ensejando o convite de Marcos e Mimi para o seu primo Edinho Espíndola ingressar no conjunto assumindo a bateria. Posteriormente, integrou-se à banda Pekos (Pepeco/Pássaro), no baixo. A banda, assim formada, misturava MPB e rock, e tocava os hits do Tropicalismo como “Alegria Alegria”, de Caetano Veloso, entre outras músicas, nos bailes que animava e em programas de TV como o GR Show. Após o Festival da Arquitetura e o FIC, em 1969, a banda se radicou a partir de então no Rio de Janeiro, voltando a se fixar em Porto Alegre alguns de seus membros somente por volta de  1973, após terem participado inclusive dos shows do “Som Livre Exportação” da Rede Globo, apresentado com sucesso também em Porto Alegre. Em 1973 a banda fez um show no Theatro São Pedro com lotação esgotada. Gravaram no Rio também o disco com a trilha do filme “Marcelo Zona Sul”. Após alguns percalços, a banda desmanchou-se. Em 1974, junto com Zé Vicente Brizola,  Mimi, Edinho e Pekos fundaram o Bixo da Seda. Na seqüência, entrou Cláudio Vera Cruz no baixo, no lugar de Pekos. Posteriormente, saíram Cláudio e Zé, e se integraram Marcos e Fughetti Luz, que estava cantando no Bobo da Corte. O Bixo participou do Festival de Rock da Praia do Leste, junto com grandes nomes e bandas do rock brasileiro – e inclusive com os gaúchos das bandas Byzarro, Khaos e Almôndegas. O som do Bixo, contudo, era completamente diferente do feito pelo Liverpool: ao invés de Tropicalismo, o enfoque era o hard rock e o  progressivo. A banda realizou inúmeros shows em Porto Alegre, antes de novamente radicar-se no Rio. Em alguns shows feitos aqui, após estarem morando no Rio, fizeram parte da formação do Bixo Vinícius Cantuária (que foi baterista da primeira formação de O Terço e da “Outra Banda da Terra”, que acompanhou Caetano Veloso, ficando o Bixo com dois bateristas) e, posteriormente, o tecladista Renato Ladeira (Ex-The Bubbles, ou “A Bolha”, e futuramente fundador do Herva Doce, nos anos 80), que chegou a gravar no único LP lançado pelo Bixo da Seda. O guitarrista Zé Flávio e o vocalista Alemão Ronaldo, bem como o tecladista Paolo Casarin chegaram a fazer parte da banda, em sua última formação, até separar-se no início dos anos 80. Em 1998, junto com as bandas Tutti Frutti e Made in Brazil, o Bixo reuniu-se para participar do antológico show “Heróis do Rock”, realizado na Auditório Araújo Vianna. Em 2006 a banda reuniu-se novamente para shows, um deles realizado na Garagem Hermética, mas sem Fughetti no vocal.  Tanto o Liverpool quanto o Bixo da Seda foram bandas importantíssimas e seminais do rock gaúcho e brasileiro.

Logo depois do Festival da Arquitetura de 1969, a banda o “Succo” participou de um espetáculo multimídia com roteiro de Cláudio Ferlauto e Direção Geral de Antônio Aiello  chamado “Alice na TV”, que foi apresentado no teatro do Círculo Social Israelita. Posteriormente, no início dos anos 70, Hermes Aquino chegou a integrar a banda, tendo feito algumas apresentações com a mesma. Mutuca (Carlos Eduardo Weirauch), que antes de participar do “Succo”, já havia participado dos grupos “Os Incógnitos” e “Alphagroup”, em 1975 liderou a Banda de rock “A Barra do Porto”, que, entre seus membros, contou com Bebeco Garcia, Edinho Galhardi (que nos anos 80 criaram a banda “Garotos da Rua”, obtendo sucesso nacional; aliás, a banda foi formada e começou tocando no bar “Rocket 88”, de propriedade de Mutuca) Bugo Silveira e Rogério Collares. Mutuca participou, ainda, das bandas “Óculos escuros” (com Bebeco, Edinho, João Fondaik e depois Renato Machado), “Irmãos Brothers” (ao lado de Careca da Silva, Léo Ferlauto e Chaminé) e “Bric Brothers” (ao lado de Deio Escobar, Fernando Pesão, Chaminé e Kclaúdio Mattos).  Em seu único CD até agora lançado (de 1999), Mutuca registrou duas músicas dentre suas diversas parcerias com o grande poeta gaúcho Nei Duclós, sendo que a música “Declaração” foi também gravada por Nei Lisboa em seu clássico disco “Carecas da Jamaica”, de 1987. O Mutuca a que nos referimos é o próprio a quem Nei alude na música “Faxineira”, do seu LP “Hein?!”, lançado pela EMI Odeon em 1988. Atuou por um longo tempo com a banda “Mutuca e os Animais” (com Marcelo Truda, Chaminé, Edinho Galhardi e Ricardo Cordeiro), e atualmente remontou o “Alphagroup” (com Jaime, Eco, Ezequiel e Raulino). Mutuca, além de um tremendo músico, cantor e compositor, é uma “enciclopédia ambulante” do rock, e todo sábado à tarde nos brinda com verdadeiras aulas em seus programas na Ipanema FM, tirando do baú e mostrando para a galera inúmeras raridades do rock nacional e internacional das quais comumente sequer ouvimos falar antes.

Outra figurinha carimbada do rock gaúcho, que fez parte desta plêiade tropicalista, foi o já várias vezes mencionado Cláudio Vera Cruz, guitarrista de “mão cheia” (elogiado pela Revista Rock, do Rio, em 75) e grande compositor. Cláudio passou pelos Satânicos (com Hermes Aquino, Português e Daniel Galvão), pelo SOM 4 (com Hermes, Português e Galvão (bateria), e também em determinado período por Alemão Roy na batera), pela Banda do GR Show, pelo Succo, e chegou a tocar teclado com o Liverpool nos estertores da banda. Participou também da espetacular banda “Saudade Instantânea”, do nível dos Mutantes “progressivos” dos anos 70,  que, conforme nos apontou o jornalista e crítico Emílio Pacheco, que abriu o show dos Secos e Molhados no Gigantinho em 1973. O Saudade foi integrado por Cláudio nas guitarras e baixo, junto com Morongo (médico e proprietário da griffe de surf Mormaii, é o “Mor” da sigla), Maira (esposa de Morongo, que completa o “Mai” da Mormaii), Neno (bateria), Mitch Marini (baixo) e Gata (segunda bateria, irmã mais nova de Morongo, que figurou em diversas bandas e grupos gaúchos, tais como o Bobo da Corte, Pentagrama,  Sol e Chuva e Saracura). O Saudade Instantânea montou a ópera-rock Eugeny, em 1972, no Theatro São Pedro, espetáculo que contava, além das músicas, com cenários, projeção de imagens elaboradas pelo artista plástico Ricky Bols, figurinos, e enredo escrito por Paulinho Buffara. A ópera tinha um clima bem psicodélico e viajante, misturando rock e progressivo. Na seqüência, Cláudio foi um dos integrantes do Bixo da Seda, ao lado de antigos integrantes do Liverpool (Mimi Lessa e Edinho, entrando no lugar de Pássaro-Pekos no baixo), e, ainda, de Zé Vicente Brizola. Depois saiu Zé, que foi para Londres, passando Cláudio para a guitarra, com Mimi, e Marcos Lesa assumindo o baixo. Algumas das músicas do Bixo que o público mais gostava são de autoria de Cláudio, tais como “Dona Ieda”, que infelizmente não fez parte do único registro em disco da banda, mas foi gravada pelas bandas Os Totais e Kúria. Mas “Bixo da Seda”, sua e de Paulinho Buffara, que felizmente foi gravada no LP, não lhe foi devidamente creditada no encarte do disco. Com a gravação do LP, o Bixo foi “de mala e cuia” para o Rio, e Cláudio decidiu ficar em Porto Alegre. Em 1977, em carreira solo, fez parte do disco “Paralelo 30” com as músicas “Sem rei” e “Ruínas de um Sonho”, e estourou a música “Aonde vai Você” na Rádio Continental AM, que foi gravada pelo conjunto Impacto (integrado por João Manoel Blattner, do Succo, na bateria) em seu disco de 1985, e regravada no CD que o grupo lançou em 1996. Em 2001, o disco “Paralelo 30” mereceu relançamento em CD, com a gravação de outras músicas dos autores em um segundo CD, e devidos shows de lançamento com acompanhamento da Orquestra da Unisinos, sendo que Cláudio gravou “O Mapa”, poema de Mário Quintana que  musicou. Em 2005, a convite do compositor e produtor cultural Caetano Silveira, Cláudio fez um show no “Sarau do Solar dos Câmara” resgatando suas diversas parcerias, que transitam entre a MPB e o rock, e continua se apresentando em bares de Porto Alegre. Cláudio Vera Cruz, sem dúvida, é um dos maiores compositores da história da música gaúcha urbana, grande guitarrista e uma das “véias” clássicas do rock gaúcho, um verdadeiro “dinossauro do rock”.

Em 1969, ainda, foi realizado o espetáculo “Dia Um”, no Teatro Aldeia 2 (que não existe mais), do qual participaram, entre outros, Wanderley Falkenberg, Chaminé, Mutuca, Giba-Giba, Bacardi e Gracinha Magliani, em que foram interpretadas  canções de Wanderley e Luis Santana, entre outras. Em 1970 foi formada a banda “Uma Mordida na Flor”, que fez bastante sucesso no âmbito local entre “os magrinhos” (o público jovem, assim identificado aqui, à época), e que contava com Wanderley Falkenberg, Luiz Santana, Gracinha Magliani, Nery Caveira e Siboney. No ano de 1973, foi montado o show “Amelita, Cabeça, Corpo e Membros”, contando com Cláudio Levitan, Wanderley Falkenberg, Mutuca, Chaminé, Celso Loureiro Chaves, Patota, Nery Caveira e Renato Português, que tinha como proposta fazer uma homenagem musical às mulheres, e o próprio título homenageava Amelita Baltar, cantora e esposa de Astor Piazzola. O espetáculo foi apresentado no Teatro de Câmara, e estava centrado em canções de Wanderley e Levitan (autor da música-título). Em 1975, houve a realização do espetáculo “Em palpos de Aranha”, apresentado no Círculo Social Israelita e em outros teatros. Tratou-se de um show muito bem elaborado, com cenários e grande equipe de produção,  contando inclusive com um belíssimo folheto, que é mais propriamente um caderno contendo desenhos do multifacetado e super talentoso Cláudio Levitan, que, além de músico e arquiteto, é desenhista, chargista, escritor, ator de teatro, etc. -. O show tinha como base canções de Levitan e de Zé Flávio, e a banda era ainda formada por Chaminé (cuja canção “Gringa Cabreira” também foi interpretada), Inácio do Canto (que contribuiu com a música “E daí”), Lauro Ney, Neri Caveira, Gracinha Magliani (que incluiu no programa sua canção “Pássaro Amarelo”) e Giba-Giba. Dentre as canções que integravam este show, estavam as “clássicas”  “Tango da Mãe” e “Nada Mais” (que no final dos anos 70 e no início dos anos 80 integraram com destaque o repertório do Musical Saracura, junto com “Marcou Bobeira”), e “Alnévola” (que Cláudio gravou há pouco tempo junto com a banda Os Tripulantes, na qual participa sua filha Carina). Cláudio já lançou três CDs, o “Primeiro”, “Milonga minha longa milonga” e “Com.pacto.triplo”, este com os Tripulantes. De Zé Flávio, entre outras, integrou o repertório do show a música-título “Em palpos de Aranha”, que foi gravada no terceiro LP dos Almôndegas, de 1977, quando Zé já era integrante do grupo. O grupo/espetáculo “Em palpos de Aranha” chegou a participar do primeiro show coletivo “Mr. Lee in Concert”, no Teatro Presidente. Em 1975, ainda, Zé Flávio montou o grupo Mantra (com Inácio, Zé Luís, Jakka, Clóvis e Fernando Pesão), para interpretar diversas canções suas, num enfoque tropicalista/psicodélico, com ele esmerilhando sua guitarra com influências latinas  “à la Santana”. O Mantra também foi figurinha carimbada dos Concertos do Mr. Lee da Rádio Continental.

Os diversos espetáculos montados nos anos 70 em teatros que reuniram vários músicos da tendência tropicalista deram sem dúvida continuidade à trajetória bem-sucedida do grupo inaugurada a partir dos Festivais da Arquitetura, e serviram como veículo para a amostragem das canções dos grandes compositores que são Wanderley Falkenberg, Mutuca, Luiz Santana, Cláudio Levitan, Giba-Giba, Zé Flávio, entre outros. Cumpre ressaltar que, em 2006, a cantora Maria Lúcia Sampaio (ela também arquiteta formada na UFRGS) realizou espetáculo resgatando maravilhosamente diversas canções da parceria entre Giba-Giba e Wanderley (dentre elas, a famosa e linda “Lugarejo”, que foi gravada no LP “Música Popular Gaúcha”, pela RBS Discos, em 1985, e também por Nana Chaves no LP “Nova Canção do Sul”, de 1980, e a fundamental “Esquina Maldita”, em homenagem à esquina famosa a que já referimos), bem como de Giba com outros grandes autores, tais como Toneco (que, com seu filho acompanhou ao violão Maria Lúcia no show, ao lado de Fernando do Ó), contando com a participação especial do próprio Giba-Giba. Giba que, em 1983, ao lado de Toneco (e de Glória Oliveira, Maria Lúcia, Dudu Penz, Fernando do Ó e Kim Ribeiro), participou do LP coletivo “Porto Alegre 83”, com as músicas “Sopapo” e “Saias Rodando”, e lançou seu LP solo em 1992. Também deve ser ressaltada, neste ponto, a gravação da música “Mantenha a Distância”, de Wanderley e Luiz Santana pela excelente cantora Glória Oliveira, no LP dela de 1988, bem como o registro de “Bata Beta” (de Giba com Wanderley) pela cantora Muni, em seu primeiro CD.

Os Almôndegas (Kleiton, Kledir, Gilnei Silveira, Pery Souza e Quico Castro Neves), banda que se reuniu por volta de 1971, quando apresentou-se no I Festival Universitário Catarinense da Canção, contando, ainda, com Biaggio na formação. Em 1972 e 1973, o compositor José Fogaça, então professor do cursinho pré-vestibular IPV, e atual prefeito de Porto Alegre, organizou duas edições da Mostra de Música e Feira do Som, a primeira no Theatro São Pedro, e a segunda no Colégio do Rosário, do qual participaram, dentre vários outros nomes, Kleiton e Kledir, Zé Flávio (que em 1977 passou a integrar a banda os Almôndegas) e Inácio do Canto. Os Almôndegas lançaram seu primeiro LP em 1975, contendo diversas músicas que podem muito bem ser associadas à estética tropicalista. Aliás, Kledir Ramil sempre enfatiza em suas entrevistas a grande influência de Caetano Veloso em sua formação musical. Canções como “Teia de Aranha”, “Olavo e Dorotéia”, “Quadro Negro”, “Almôndegas”, “Rock e sombra fresca no quintal” (de Zé Flávio) têm letras que muito bem podem ser consideradas de cunho tropicalista e até psicodélico, o mesmo valendo para  as músicas “Elevador”, “Séria Festa”, “Vida e Morte” e “Coisa Miúda”, constantes do segundo LP, “Aqui”, lançado no mesmo ano também pela Gravadora Continental. Mas a proposta Tropicalista também transparece no fato de o grupo incorporar diversas canções de cunho regional, não apenas do folclore gaúcho (tal como “Velha Gaita”), mas dos então novos e talentosos compositores como Fogaça e Luiz Coronel/Marco Aurélio Vasconcellos, bem como dos integrantes do grupo, e, ainda,  “Amargo”, do compositor de mil faces e talentos que foi Lupicínio Rodrigues – Aqui cabe fazer um “corte epistemológico”, como diriam os estruturalistas, para salientar o fato de que este trabalho de fusão entre o regionalismo gaúcho e a MPB foi também de responsabilidade em grande medida de artistas e compositores ligados inicialmente à estética da Bossa Nova nos anos 60, tais como os grandes Raul Ellwanger, Zé Gomes (pai do baixista André Gomes, do grupo “Cheiro de Vida”), Sérgio Napp e Ivaldo Roque {(que formou o antológico grupo “Pentagrama”, junto com o extraordinário compositor e cantor Jerônimo Jardim, Tenisson Ramos – baixo, Beto Meimes (que após saiu) e as espetaculares cantoras Loma  (voz e percussão) e Yoli (voz e bateria), sendo que posteriormente entrou Chico Ferreti no lugar de Jerônimo e Gata no lugar de Yoli; o “Pentagrama”, em nosso ver, foi o grupo que com maior ousadia buscou aproximar a música típica gaúcha com o som universal, levando-se em conta a complexidade dos arranjos e das harmonias utilizadas, inclusive as vocais)}, entre outros -. Posteriormente, esta característica psicodélica que já se vislumbrava nas letras de algumas das músicas gravadas pelos Almôndegas migrou  fortemente também  para  os arranjos, com a entrada na banda de João Batista (baixo), Zé Flávio (guitarra) e Fernando Pesão (bateria) – saíram, ao longo da duração da banda, que durou até 1978, Pery, Quico e Gilney. De fato, em sua última configuração, os Almôndegas contaram com um significativo viés roqueiro, embora as músicas constantes dos dois últimos discos lançados (“Alhos com Bugalhos”, de 1977, e “Circo de Marionetes”, de 1978, pela Phonogram/Philips) apontassem em direção a diversos ritmos e propostas, a exemplo do que já ocorria no princípio de sua trajetória, inclusive com a regravação do “Gaúcho de Passo Fundo”, mega sucesso do cantor e compositor de música regional gaúcha Teixeirinha (que, aliás, era considerado à época “brega” pela intelectualidade urbana e o público estudantil), à qual foi  misturado o “refrão” (Rocktchubtchuba…) do “Rock e Sombra Fresca no Quintal”. Em 1979, Kleiton e Kledir (que contavam na banda de apoio com Zé Flávio e João Batista) deram início à carreira “solo”, alcançando sucesso nacional com diversas canções, e lançando vários ótimos LPs. Após terem dado “um tempo” na dupla, lançaram dois ótimos LPs solo de cada um, e, na volta, em 2001, um CD com regravações e inéditas.  Recentemente lançaram um DVD gravado ao vivo no Salão de Atos da PUC (cuja gravação tive o privilégio de assistir), pela Orbeat Music. Do DVD participa o irmão mais novo de Kleiton e Kledir, Vitor Ramil, que começou sua trajetória ainda no final dos anos 70, em Pelotas, lançando em 1981 um LP pela Polygram, e posteriormente outro pela RBS Discos (“A paixão de V por ele mesmo”) em 1984, e, na seqüência, o clássico “Tango”, pela EMI-Odeon (1987). Suas músicas foram gravadas, dentre outras intérpretes, por Gal Costa e Zizi Possi. Desde então Vitor já lançou diversos CDs independentes, misturando inúmeras referências, inclusive sonoridades próprias do RS, tal como a milonga, constituindo uma das mais sólidas e criativas obras da história da música gaúcha.

Outro cantor/compositor/músico em que podemos identificar a influência da proposta tropicalista é o grande Bebeto Alves. Bebeto iniciou  sua trajetória nos anos 70 no grupo Utopia (trio progressivo/acústico/psicodélico, posteriormente eletrificado e aumentado em seu número de componentes), que virou cult em Porto Alegre. Bebeto, após um show feito em conjunto com Léo Ferlauto (“Quieto e Morno”), realizou um show com Carlinhos Hartlieb (“Voltas”, de 1977, que resultou em um CD lançado em 2003), e mais Cao Trein, De Santana e Everton Pires. Em carreira solo, Bebeto já lançou inúmeros discos desde então (o primeiro, gravado ao vivo com acompanhamento do Cheiro de Vida, o segundo, pela CBS, o terceiro lançado pela Som Livre …), conseguindo mesclar de  forma magistral os elementos próprios da música gaúcha “nativa” (especialmente a milonga, que desde muito cedo ouviu, ainda quando, antes da adolescência, morava em Uruguaiana) com o “universal”,  transitando, sem embargos e sem preconceitos, simultaneamente por caminhos os mais diversos, tais como o rock, o reggae, o tango e o que mais vier. Deve-se salientar, ainda, o grupo “Juntos”, que Bebeto integra com Gelson Oliveira, Nelson Coelho de Castro e Antônio (Totonho) Villeroy, que já lançou dois CDS, o primeiro “dando uma geral” na carreira e nos hits de cada um, e o segundo com músicas inéditas. O site do Bebeto é muito legal e vale a visita:www.bebetoalves.com.br. Ali poderão ser encontradas outras informações sobre este grande músico.

Em 1978 foi criado o grupo Saracura (Nico Nicolaiewsky, Sílvio Marques, Chaminé e Fernando Pesão), que pode ser considerado um dos herdeiros mais claramente identificáveis da saga tropicalista gaúcha a que aludimos, não somente por contar com a participação de Chaminé e de Cláudio Levitan (este como compositor e produtor artístico), mas também pela participação de Zé Flávio, que tocou guitarra no único LP lançado pelo grupo. Além disso, o Saracura foi um dos grupos que melhor soube mesclar as influências da música nativa do RS com o rock e a MPB. No final de 1977, Sílvio Marques, Paulo Xavier (que integraram juntos o grupo Academia de Danças, com Careca da Silva e Luis Santarém),  Nico (que na época utilizava como nome artístico Nico Nélson, e que anteriormente tinha  tido como experiência musical a vitória no festival do Colégio Israelita, em 1974), reuniram-se para realizar o show “Catinga Blu”, no bar Adega, que ficava na Av. Independência, em Porto Alegre. O show continha canções de Sílvio e Nico, entre outras, e teve a participação de Cláudio e Liane Levitan, Chaminé e Beto Meimes. Na seqüência, Nico, Sílvio, Paulo Xavier, Chaminé e De Santana participaram de um show com o cantor e compositor baiano Piti (naturalmente, nada a ver com a cantora, você não leu errado), chamado “Deitar e Rolar”, título de uma canção do baiano gravada por Erasmo Carlos (Piti também teve canções gravadas por Gal e Bethânia). Piti foi um dos artistas que se apresentou nos shows de que participaram Caetano, Gil, Gal, Tom Zé, etc., no Teatro Vila Velha de Salvador, ainda quando eram meros iniciantes na cena local baiana, antes da migração para o centro do país e a fama nacional, e chegou a lançar um compacto produzido por Gilberto Gil, em 1973. Sílvio Marques conheceu Piti em Salvador, e o baiano veio para o sul  visitá-lo, surgindo a partir daí a idéia do show, que foi apresentado também pelo interior paulista, contando com canções de Piti, Sílvio e Nico, entre outras. Já no final de 1978, o Musical Saracura estava formatado, contando com Nico (piano e voz), Sílvio (violão e voz), Chaminé (baixo e voz) e a baterista Gata (que posteriormente foi substituída por Fernando Pesão),  apresentando o seu primeiro show no teatro do Círculo Social Israelita. Aliás, os shows da banda normalmente contavam com boa produção, roteiro, iluminação,  cenários, etc., tendo um caráter conceitual. Em 1979 contaram com Kleiton Ramil na produção de seu show. Em 1980, o Saracura inaugura uma parceria com o compositor nativista Mário Bárbara, realizando diversas apresentações juntos, inclusive participando da Califórnia da Canção interpretando a bela “Campesina”, gravada no LP do festival (participaram também da gravação de “Velhas Brancas”, de Barbará, que saiu no LP “Nova Canção do Sul”). No único disco solo do Saracura lançado (inicialmente de forma independente, e depois relançado pela gravadora Continental, em 1983), foram gravadas as canções Xote da Amizade e Bolero Lero (de Barbará),  Xote de Jaguarão (de Kledir Ramil), Marcou Bobeira, Tango da Mãe e Nada mais (todas de Levitan), Toda moça (de Sílvio e Orlando Nascimento) e a belíssima “Flor”, de Nico e Sílvio. Na gravação do disco e em alguns shows houve a participação de Zé Flávio na guitarra, sendo que Léo Henkin (guitarrista do Dzagury, Os Eles e atualmente nos Papas da Língua) também assumiu a guitarra em vários shows. O Saracura, ao longo de sua trajetória, interpretou inúmeras músicas de seus integrantes e outras que não foram registradas em vinil. A banda seguiu sua trajetória até 1984, quando desfez-se. Nico montou, ao lado de Hique Gomes, o espetáculo cômico-musical Tangos e Tragédias, além de lançar um CD solo. Antes, foi gravada no disco Música Popular Gaúcha, da RBS Discos, a sua canção “Como um picolé ao sol”. Sílvio vem desde então se dedicando à sua produtora de jingles, e está na iminência da fazer um espetáculo, voltando “oficialmente” à cena gaúcha. Chaminé, depois do Saracura, dos Irmãos Brothers, fez parte da banda J. J. Co, que teve uma música lançada no primeiro CD comemorativo da Rádio Ipanema FM (Mogadon), mas infelizmente já faleceu. Fernando Pesão segue com muito sucesso nas baquetas do Papas da Língua (ele que  participou de inúmeras bandas de Porto Alegre, tais como Zacarias, Mantra, Hallai Hallai, Inconsciente Coletivo, Almôndegas…).

E o caminho aberto pelos Tropicalistas gaúchos, como dissemos no início, continua influenciando a música feita em Porto Alegre, e inspirando trabalhos os mais diversos, de bandas de rock a grupos de MPB. Realmente, podemos salientar que a sua influência se faz sentir em inúmeros trabalhos de vários (as) cantores/cantoras e compositores/compositoras, bem como em diversas bandas, inclusive de viés psicodélico. O músico e produtor cultural Márcio Ventura, a quem pedimos auxílio no sentido de mapear os principais rastros do Tropicalismo na música popular atualmente feita no RS (ele que está no “olho do furacão” da cena rocker local), reputa que a influência do movimento se faz sentir não apenas no trabalho de sua banda, Os Arnaldos, mas também nos trabalhos de Os Subtropicais, Arthur de Faria, Frank Jorge (da Graforréia Xilarmônica), Fruet e os Cozinheiros, Jimi Joe e, evidentemente, Levitan e os Tripulantes. Adriana Calcanhotto também notadamente mantém um viés tropicalista em seu trabalho. A isso poder-se-ia acrescentar, sem embargo, e consoante já apontamos, que, de resto, diversos elementos carreados à cena da música popular feita no Brasil pelo movimento Tropicalista já estão integrados como pressupostos de um trabalho de composição popular, e, em nosso caso específico, já estão agregados ao próprio “inconsciente coletivo” dos roqueiros e “mpbistas” gaúchos, de maneira que sua influência está amplamente difundida e incorporada  neste universo, permeando trabalhos os mais diversos.

 

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