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Pra Começo de Conversa

Pra começo de conversa

Por Rogério Ratner

Nos anos 80 surgiu na TVE um programa muito importante em termos de repercussão junto ao público jovem/universitário portoalegrense, em face de sua qualidade. Foi o “Pra Começo de Conversa”, que era inicialmente apresentado por Cunha Jr., e, depois de sua saída, pelo Peninha, que já atuava na produção do programa. O programa tinha o grande barato de ser “alternativo”, expressão muito em voga então, e de refletir as maneiras, os gestos, os anseios e aspirações da juventude bomfiniana de então, naqueles estertores da ditadura militar. No programa rolavam matérias sobre cultura pop, entrevistas com músicos (especialmente com os gaúchos), cineastas, atores, etc., enfim, havia uma repercussão da vida cultural da cidade naquele período. As entrevistas eram muito bem feitas, sempre num estilo bem despojado. Depois que Cunha Jr. foi para a TV Gaúcha (RBS TV), Peninha assumiu a apresentação. O estilo de apresentação de Cunha Jr. era mais sereno, mais cool; já o estilo do  Peninha era totalmente diferente, sempre muito elétrico, agitado, transbordante. Mas tanto um como o outro, dentro de seus respectivos estilos, eram  grandes trunfos do programa, sendo responsáveis diretos pela audiência expressiva, dentro do nicho jovem.

Lembro-me de ir numa festa de aniversário do programa, que rolou num sábado à tarde de calor sufocante, no Teatro do Museu do Trabalho, que fica no início da rua da Praia, lá perto da Usina do Gasômetro. Apresentaram-se diversas bandas, mas ficou gravada na memória mesmo a apresentação do Urubu Rei, uma banda totalmente “malucaça” que se valia de recursos cênico-performáticos, contando com diversos atores consagrados na cena teatral de Porto Alegre, que  faziam as vezes de cantores/performers (Lila Vieira, Luciene Adami, Patsy Ceccato, Renato Campão, Jaime Ratinecas), e que, na parte musical, era comandada pelo Gordo Miranda, num clima mezzo new wave, mezzo punk. Miranda hoje é muito conhecido nacionalmente como produtor musical, responsável pelos selos Banguela, e o ultimamente vi como jurado do programa “Ídolos”, do SBT. Me lembro que, na ocasião, os atores levaram para o palco salsichões crus, os quais ficaram cravando em uns espetos de churrasco, só que na verdade estavam “destruindo” os dito cujos, voando pedaços daquela massa disforme por todo o palco.  O Jaime Ratinecas é irmão de um amigo meu, o Marquinhos, e uma ocasião, em que fui  no apartamento da família deles, em Capão da Canoa, tive a oportunidade de perguntar ao ator qual era o significado profundo daquela performance. Eu estava à espera de uma explicação “stanislawskiana”, “brechtiana”, “artaudiana”, surrealista, ou algo ainda mais profundo e sofisticado. Mas foi um sarro que ele  disse que achava que a intenção era apenas causar nojo mesmo. E, sem dúvida, neste sentido a banda atingiu plenamente os objetivos.

Mas, voltando ao enfoque principal, no  final da festa de aniversário o público foi convidado a subir ao palco e dar o seu depoimento sobre o que achava do programa. E daí até eu dei o meu depoimento. Seria bacana se se imagens do “Pra Começo de Conversa” fossem de alguma forma  disponibilizadas na internet. Mas tenho uma justificada suspeita de que talvez não tenha sobrado muita coisa gravada, pois uma amiga que trabalhou um tempo na TVE me contou que a emissora, em face das dificuldades financeiras permanentes que sempre a rondaram, tinha por hábito naquela época de fazer o reaproveitamento das fitas com programas gravados para novas gravações. Atualmente sei que é mantido um acervo com os programas gravados, mas parece que em um período isso não foi bem observado. Tomara que as minhas suspeitas não tenham fundamento, e que afinal tenha sido preservado esse riquíssimo material, que reflete um período muito legal da produção televisiva e artística de Porto Alegre.

Cunha Jr., depois de sair da RBS, foi trabalhar na TV Cultura de São Paulo, onde apresenta o Metrópolis, já de longa data, um programa que na verdade tem muito do Pra começo de Conversa. Peninha, por sua vez, além de sua  atuação jornalística, vem destacando-se como escritor e tradutor.  Usando seu nome próprio, Eduardo Bueno, consagrou-se por traduções clássicas, como a do livro “On the Road”, de Jack Kerouac, bíblia da Beat Generation americana, e também deu sua contribuição para a tradução de uma biografia de Bob Dylan,  “oficialmente” a cargo de sua ex-mulher. Também fez muito sucesso ao contar em livro a fulminante e rápida trajetória  dos Mamonas Assassinas. Mas sua notoriedade maior decorre  do lançamento de diversos livros contando a história do descobrimento do Brasil de uma forma palatável e acessível ao público em geral, demonstrando um  grande talento como narrador, sem dúvida.

Não seria exagero dizer que dois programas que atualmente são apresentados na TVE, e que, por sua vez, também já são “clássicos”, devido à grande qualidade de seus produtores e apresentadores ao longo do tempo, têm no “Pra Começo de Conversa”  uma espécie de antepassado. De fato, tanto o programa “Radar” (que, no momento, é apresentado pelo multifacetado Léo Felipe, homem de mil talentos, seja como apresentador, DJ, produtor Cultural, escritor e organizador de baladas confirmadas) quanto o “Estação Cultura” (atualmente apresentado pela talentosíssima e super gente fina Marla Martins, que nos anos 90 apresentou o Radar), ao que me parece, guardam alguns traços do “Pra Começo de Conversa”, embora, obviamente, tenham também características próprias que foram sendo moldadas pelas equipes que se seguiram ao longo do tempo à sua frente.

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