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A velha guarda gaúcha

por Rogério Ratner

 

A música popular brasileira feita até o advento da Bossa Nova (final dos anos 50), e muito especialmente depois da Jovem Guarda (anos 60), vem sendo denominada por inúmeros críticos, pesquisadores, historiadores, jornalistas e musicólogos como “Velha Guarda”. Também é comum o uso da expressão “Época de ouro” por parte daqueles que se referem ao período, expressão sem dúvida bem mais edificante do que a primeira, que enseja uma certa associação com o conceito de “ultrapassada”. Seja como for, o fato é que, como bem sabemos, na indústria da música a obsolescência dos artistas ocorre, de um modo geral, muito rapidamente, e logo aquilo que era “in” em uma época vira “out”. A forma de cantar trazida pela Bossa Nova, que, a princípio, exigia menos dotes vocais, ao menos em termos de potência, em grande medida provocou uma alteração no gosto dos ouvintes, consagrando-se como quase regra, e condenando ao limbo inúmeros artistas do período anterior. A Jovem Guarda, versão nacional do primeiro rock e da “invasão britânica” ensejada pela beatlemania, meio que representou a pá de cal lançada por sobre os artistas pré-bossa nova. E a consolidação da MPB (a partir da geração dos Festivais, incluindo os tropicalistas) aprofundou este processo. Isto não significou, é bom ressaltar, que vários artistas daquele período anterior tenham deixado de gravar, ou que não mantiveram algum espaço e uma carreira musical significativa, mas, sem dúvida, saíram do foco principal das atenções midiáticas; muitos deles, infelizmente, caíram em completo ocaso. Uma certa dificuldade que surge, contudo, deste conceito de “Velha Guarda”, é que artistas muito díspares são comumente associados como pertencentes a uma mesma estética, sem que se atente para as especificidades de cada um. Assim é que, geralmente quando se faz a referência a que um artista é da “Velha Guarda”, logo se produz a associação mental de que o mesmo deveria ter um “vozeirão” e provavelmente cantaria músicas algo trágicas, emprestando uma significativa gravidade em sua interpretação. Embora haja indiscutivelmente uma ampla gama de artistas do período a que estamos nos referindo que poderiam ser associados a uma tal estética, o fato é que havia muitas graduações, não sendo incomum que diversos outros tivessem uma abordagem mais “leve”, e mesmo que aqueles primeiros também não seguissem um roteiro “monocórdico”, alternando leveza e gravidade.

De fato, se temos nomes paradigmáticos como Sílvio Caldas, Vicente Celestino, Francisco Alves, Orlando Silva, Nelson Gonçalves, Ângela Maria, Herivelto Martins, Dalva de Oliveira, dentre muitos outros, que poderiam ser descritos como aqueles da “tendência dominante” – ou seja, vozeirão e intensidade na interpretação” -, vamos encontrar também diversos outros que não poderiam ser exatamente enquadrados nesta “via principal” em que geralmente é etiquetada a geração associada ao conceito de “Velha Guarda”, por terem um aproach mais leve. É o que ocorre em relação a Mário Reis, Carmen Miranda, Noel Rosa, Lamartine Babo, etc. Mas mesmo entre aqueles associados à estética do “vozeirão”, há várias nuances, tal como se constata ao escutar nomes como Jorge Veiga, Ciro Monteiro, Cauby Peixoto, etc. E ainda aqueles primeiros, a nosso sentir, não deveriam ser encarados como um “monolito”, pois emprestavam diversas variações e sutilezas a suas interpretações, dependendo das canções gravadas e dos estilos das composições, especialmente quando gravavam sambas mais ligeiros e músicas para o carnaval. De fato, parece ser preciso que o ouvinte contemporâneo encontre o seu próprio caminho no sentido de “desconstruir” o preconceito que acabou se formando em relação aos artistas do período, a partir da drástica mudança de referencial estético havida especialmente em vista do advento da bossa nova, de forma a melhor poder fruir da maravilhosa herança deixada pelos artistas daquela que poderíamos mais apropriadamente alcunhar como “fase clássica” da música popular brasileira. A realidade é que, goste-se ou não do estilo de interpretação, dos arranjos instrumentais, da temática das canções e da linguagem utilizada, ninguém poderá negar que os artistas daquele período “não estavam para brincadeira”: eram, quase que invariavelmente, grandes intérpretes, dotados de enorme musicalidade e criatividade, e de notável presença cênica. Como em música não há o certo e o errado, apenas o mal feito e o bem feito (claro que os limites disto são totalmente subjetivos), acreditamos ser preciso resgatar do “degredo” os artistas daquele período, e é necessário, para isso, que sejam trazidas à luz as obras primas e a história dos protagonistas. Isto realmente vem sendo feito, ao menos em certa medida, por algumas iniciativas louváveis, que poderíamos listar: as gravadoras majors têm relançado alguns discos daqueles artistas em CD, cujos fonogramas (muitos lançados em 78 RPM) estão “escondidos” em seus arquivos e acervos; o selo Revivendo está trazendo à tona uma ampla gama de “tesouros” deste período; vem sendo lançadas biografias de compositores/cantores/instrumentistas do período (escritas por craques como Rui Castro, Sérgio Cabral, entre muitos outros); inúmeros blogs de amantes da música brasileira daquele período têm disponibilizado gravações retiradas de vinil, além de resgatar a memória cultural; há editoras como a Abril Cultural e a Folha de São Paulo, que lançaram/lançam colecionáveis de ótima qualidade; a própria Rede Globo, com iniciativas como as minisséries “Chiquinha Gonzaga” e “Dalva e Herivelto” têm enfocado o período, etc.

É claro que ninguém deve ser forçado a gostar daquela produção por “decreto”, até porque a pecha de “cafona”, incrustada de forma tão veemente em nosso “inconsciente”, é por demais caudalosa, consolidada e deletéria, mas, de toda maneira, pode ser bastante interessante conhecermos mais sobre aquilo que, em verdade deu o lastro à cena musical brasileira como a conhecemos hoje.

O Rio Grande do Sul também deu a sua contribuição para o cenário musical brasileiro do período em questão. Alguns artistas integraram a cena em amplitude nacional; outros, limitaram sua atuação ao cenário regional, ou não conseguiram alcançar maior renome no restante do país. Mas o fato é que a qualidade da produção musical gaúcha do período é inegável.

Neste passo, cumpre ressaltar que alcançaram uma trajetória significativa, em termos de carreira em nível nacional, nomes como os da cantora Elisa Coelho, dos cantores Alcides Gerardi, Nelson Gonçalves, Gaúcho (que fez dupla com Joel), Caco Velho, Alcides Gonçalves, dos instrumentistas Dante Santoro e Edu da Gaita, do maestro Radamés Gnatalli, dentre outros. Lupicínio Rodrigues, pode-se dizer, foi um caso a parte, pois embora o compositor tenha alcançado grande sucesso nacional, e volta e meia passasse temporadas se apresentando no centro do país, nunca deixou de residir em Porto Alegre, tendo sido inclusive proprietário de casas noturnas (tais como o Clube dos Cozinheiros e o Batelão), ao lado de seu parceiro Rubens Santos (este, um cantor carioca que, nas idas e vindas para apresentações nos países do Prata, terminou encantando-se com a “Cidade Sorriso” e aqui fixou-se até o fim da vida).

A cena local gaúcha do período foi das mais ricas, uma vez que este período correspondeu também à chamada “era dourada” do rádio gaúcho. As principais emissoras daqui (Rádios Gaúcha, Farroupilha, Difusora e Itaí) mantinham um elevado número de profissionais atuando em seus quadros, entre cantores, instrumentistas, maestros, contando inclusive com orquestras, conjuntos regionais e típicas, responsáveis pela execução de muita música “ao vivo” ao longo da programação. Além disso, havia um mercado forte para orquestras, jazz bands, e outras formações, para apresentações em bailes e festas em clubes sociais, e também muita demanda de música “ao vivo” em cafés, confeitarias, restaurantes, boates, cabarés e dancings.

São inúmeros os artistas (compositores, cantores, instrumentistas, etc.) que se destacaram no período em questão centrando o seu foco de atuação especialmente em Porto Alegre e no restante do Estado. Isto não significa, porém, que vários nomes não tenham figurado nacionalmente, de forma mais ou menos destacada, em determinadas ocasiões ou em face de algum evento ou circunstância. Podemos apontar, neste sentido, nomes como o de Túlio Piva (cujo neto Rodrigo, que também é um grande compositor, é meu amigo e contemporâneo na Faculdade de Direito da UFRGS, e deu-me a honra, uma ocasião, de um convite para almoçar na casa do compositor para conhecê-lo, oportunidade em que demonstrou toda a sua conhecida simpatia. Rodrigo, ao lado do irmão Rogério, também um grande bandolinista, estão radicados em Florianópolis, e a família tem velado bem pela memória do falecido mestre, inclusive tendo lançado um belíssimo livro-cd contando os fatos relacionados à história do compositor, com diversas gravações raras), Johnsson, Demósthenes Gonzalez, Darcy Alves, Bataclã, Lúcio do Cavaquinho, Branca de Neve, Horacina Corrêa, Maria Helena Andrade, Lourdes Rodrigues, Jayme Lubianca, Simão Goldman, Paulo Coelho, Alberto do Canto, Arthur Elsner, Otávio Dutra…

Realmente, o legado da “velha guarda” gaúcha é dos mais substanciais, tratando-se de um tesouro imenso a merecer o devido resgate. Resgate que, a bem da verdade, tem sido levado a efeito em alguma medida, especialmente em projetos especiais. Estas gerações de compositores, cantores e instrumentistas sem dúvida ajudaram em muito a preparar o cenário para as novas gerações de artistas que sobrevieram ao longo do século 20, com atuação tanto no cenário local gaúcho, como nacional, e até internacionalmente.

Vale destacar um pouco da trajetória de alguns dos inúmeros artistas gaúchos ilustres do período:

# Elisa Coelho nasceu em Uruguaiana, mas desenvolveu sua carreira especialmente no centro do país. É mãe do apresentador de TV Goulart de Andrade. Especializou-se em cantar sambas e samba-canção, sendo que o apogeu de sua carreira foi nas décadas de 1930/40. Apresentou-se nas principais rádios, como a Rádio Clube do Brasil, e atuou no Cassino da Urca. Foi intérprete de canções de Hekel Tavares, Ary Barroso (a primeira gravação de “No rancho fundo” é sua), Lamartine Babo, Tia Amélia, Joubert de Carvalho, dentre outros inúmeros “craques” da época dourada. Gravou diversos discos pelas gravadoras RCA Victor, Parlophon e Odeon.

# Alcides Gerardi era natural da cidade de Rio Grande, e radicou-se no Rio de Janeiro ainda criança. Integrou os conjuntos “Namorados ao Luar” e “Os Três Marrecos” (com Marília Batista e seu irmão Henrique). Foi contratado das Rádios Transmissora, Tupi e Nacional, e tem uma extensa obra fonográfica, tendo obtido muito sucesso com a gravação da canção “Antonico”, de Ismael Silva, dentre vários outros hits alcançados em sua carreira.

# Alcides Gonçalves nasceu em Porto Alegre, e começou cantando na Rádio Farroupilha. Foi o responsável pela primeira gravação de uma música de Lupicínio Rodrigues, de quem era parceiro (fizeram juntos, dentre outras, os clássicos “Cadeira Vazia”, “Castigo”, “Maria Rosa” e “Jardim da Saudade”). Mudou-se para o Rio de Janeiro, e passou a atuar na Rádio Nacional, além de integrar orquestras, dentre elas, a de Radamés Gnatalli. Alcides lançou diversos discos em nível nacional.

# Lupicínio Rodrigues é um dos grandes nomes do “samba canção”, estilo que fez muito sucesso, ao menos até o final dos anos cinquenta. Suas composições exalam um romantismo desbragado, que as alçou à condição de grandes clássicos da chamada “dor-de-cotovelo”. Teve inúmeras de suas composições gravadas por vários dos maiores nomes da Velha Guarda da MPB, e suas canções ainda são muitos conhecidas, mesmo pelo pessoal mais jovem, em face das gravações feitas pelos tropicalistas (Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil), e por cantoras como Maria Bethânia, Zizi Possi, Elis Regina, Fafá de Belém, Rita Lee, e cantores como Fábio Jr., Emílio Santiago, etc. Curiosamente, como intérprete, Lupicínio tinha uma abordagem que se poderia apontar como suave, de certa forma contrastante com a temática exacerbada das composições, e meio que na “contramão” da tendência principal dos cantores da época que estamos enfocando. Indiscutivelmente, diversas de suas músicas merecem figurar no crème de la crème da produção musical do período, dentre elas: Se acaso você chegasse, Volta, Esses Moços, dentre várias outras. Torcedor fanático do Grêmio, Lupicínio compôs o seu hino, que começa com o famoso verso “até a pé nós iremos”.

# Gaúcho (Francisco de Paula Brandão Rangel, nascido em Cruz Alta) fez dupla com o carioca Joel, alcançando um significativo sucesso. A dupla foi responsável pela gravação de “Pierrot Apaixonado” (hit obrigatório em qualquer baile de carnaval), e destacou-se por gravar também várias outras marchinhas, além de atuar em diversas rádios e apresentar-se nos Cassinos da Urca e Atlântico, bem como no Copacabana Palace. Deixaram uma importante obra fonográfica.

# Edu da Gaita: Eduardo Nadruz era de Jaguarão. Mestre na harmônica, inicialmente radicou-se em São Paulo, figurando na Rádio Cruzeiro do Sul. Posteriormente, no Rio de Janeiro, começou pela Rádio Mayrink Veiga, e depois passou a integrar os quadros da Rádio Nacional. Tocava e gravava de tudo, desde música popular até erudita, sendo que o ponto máximo de sua carreira foi a interpretação do Moto Perpétuo de Paganini, imortalizando-o como o grande nome da “gaita de boca” no Brasil.

# Nelson Gonçalves: um dos maiores cantores da história da MPB, a voz grave e potente era a sua marca registrada. Ainda criança, a sua família mudou-se para o centro do país. Começou a cantar na Rádio São Paulo, tendo passado por diversas outras emissoras da capital paulista, dentre elas a Cultura e a Record, até, nos anos 40, mudar-se para o Rio de Janeiro, onde começou realmente a sua trajetória discográfica, que lhe consagrou como um dos maiores vendedores de discos da RCA-Victor no mundo, chegando a atingir a marca de 26 milhões. Ídolo da “Era do Rádio”, Nelson alcançou o status de um dos melhores cantores da história da MPB, em que pese o ocaso do estilo “vozeirão” a partir do advento da bossa nova. Sua obra está recheada de sambas, boleros, tangos, etc., que refletem bem o clima da boemia dos bares, dos amores sofridos e malfadados, dos personagens combalidos.

# Dante Santoro: natural de Porto Alegre, transferiu-se para o Rio de Janeiro, e atuou inicialmente na Rádio Educadora. Depois ingressou na Rádio Nacional, liderando um conjunto regional (choro e samba) que atuou na emissora por cerca de trinta anos. Gravou diversas músicas de Otávio Dutra, que foi seu mestre ainda em Porto Alegre. Foi contratado das gravadoras RCA Victor, Odeon e Sinter. Deixou uma considerável obra fonográfica, que o credencia como um dos melhores flautistas de samba/choro da história da MPB.

# Caco Velho (Matheus Nunes): Nasceu em Porto Alegre. Quando criança, trabalhava como engraxate, e, cantando na porta do Café Florida, chamou a atenção de Paulo Coelho, por entoar a música “Caco Velho”, de Ary Barroso. Posteriormente, Paulo convidou-o a cantar na casa acompanhado de seu conjunto. Foi Paulo também que lhe levou para a Rádio Gaúcha, emissora em que cantava acompanhado do regional de Piratini (Antônio Amábile). Também se apresentava na Difusora e na Farroupilha. No final dos anos 30 foi para São Paulo, e atuou nas Rádios Tupi e Record, dentre outras. Também desenvolveu uma importante obra fonográfica, passando por diversas gravadoras. É um dos grandes nomes da história do samba, tanto como intérprete, como na condição de compositor.

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