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Mr. Lee e a Rádio Continental – Woodstock em Porto Alegre

http://lproweb.procempa.com.br/pmpa/prefpoa/pwtambor/usu_doc/mr_lee.pdf

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Matéria sobre o lp “Rock Garagem” em ZH

http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2014/06/ha-30-anos-lp-rock-garagem-colocou-o-rs-no-mapa-da-musica-jovem-brasileira-4532980.html#showNoticia=fmoxOmRNOW80OTAzODA5OTg2OTgwNzYxNjAwJktYNjQ3NzQ3Nzc1NzkzODI1NDYwMjAhUDYxNzkzNzQzMTcwODQ2MDY0NjRWVTlIaDZWMEImLTdUdXRcKX0=

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Uma banda pela noite de Porto Alegre

 

por Rogério Ratner

A noite de Porto Alegre, atualmente, é bem diversificada, havendo inúmeras opções em termos de bares, restaurantes, casas noturnas, cafés, etc. Além disso, a capital gaúcha tem recebido uma infinidade de shows musicais dos mais diversos estilos, inclusive internacionais, reunindo uma ampla gama de atrações não raramente na mesma data. Como se diz, aqui em Porto atualmente “há para todos os gostos”. Uma constatação que faço, contudo, é a da grande volatilidade dos estabelecimentos noturnos em nossa cidade. Inúmeras casas e endereços vão surgindo continuamente, mas o desaparecimento da grande maioria em geral também não tarda. Assim, a memória da vida noturna da capital gaúcha vai vivendo apenas nas lembranças afetivas de quem freqüentou determinadas casas, que, não raro, desaparecem sem deixar rastros palpáveis. Por isso, pretendo aqui relembrar alguns locais que invocam boas lembranças, e que freqüentei especialmente a partir dos anos 80, período em que vivi o final da adolescência e o início da vida adulta propriamente dita, com o objetivo de fazer os meus contemporâneos “viajarem” um pouco no tempo, e de os mais novos conhecerem um pouco do que havia em termos de noite em Porto Alegre. Cabe esclarecer desde logo que não tenho a pretensão de fazer aqui um estudo sobre a noite da capital gaúcha, mas apenas apontar alguns lugares legais que conheci. Neste ponto, é preciso deixar claro também que, obviamente, havia uma infinidade de outras opções de lugares pra ir, mas que, por uma razão ou outra, eu não freqüentava, de modo que este retrato é limitado e parcial. É necessário considerar que a freqüência a estes lugares que vou mencionar estava vinculada ao meu perfil pessoal no período, e que, naturalmente, orientava minhas escolhas e gostos. Assim, estavam mais ligados às minhas áreas de interesse, especialmente a música, e ao meu perfil sócio-econômico-cultural, de estudante da UFRGS vindo da classe média baixa.  

Eu morava na rua Jacinto Gomes, portanto, em plenos limites do bairro Bom Fim. Geralmente, quando ia sair, eu estabelecia uma espécie de roteiro, sendo que havia duas direções básicas: o Bom Fim ou a Cidade Baixa.

No  início dos 80, o Bom Fim vivia repleto de jovens, a lotar seus bares e povoar suas calçadas, reunindo uma “fauna” especialmente na Av. Oswaldo Aranha, que incluía o pessoal universitário (então fortemente engajado na luta pelo fim da ditadura militar), os roqueiros (punks, metaleiros, new wavers, góticos, rockabillys, e o que mais fosse), e mais uma multidão meio indefinível, que de uma certa forma ecoava o rescaldo dos hippies, incluindo usuários de drogas e grandes consumidores de álcool, que nós, os “engajados”, costumávamos chamar de “lumpens” e alienados. Para o pessoal mais “cabeça”, de viés intelectualizado, havia o grande atrativo do cinema, especialmente o Bristol, que ficava nos altos do cine Baltimore, na Oswaldo. Assisti, ao lado de muitos universitários contemporâneos, inúmeros filmes no cineminha que era totalmente “cult”, e que muitas vezes realizava ciclos focando determinados cineastas, sendo responsável por formar uma legião de espectadores voltados ao “cinema de arte”. Vi ali ciclos e filmes de Godard, Glauber Rocha, Truffaut, Tarkowsky, Orson Welles, Eisenstein, etc., etc. O Cinema 1 – Sala Vogue, na Avenida Independência (alto Bom Fim) também era muito frequentado por aquela parcela da juventude, e igualmente notabilizava-se por exibir filmes de arte. Aliás, numa das últimas vezes que fui àquela sala, antes de a mesma ser fechada, aconteceu uma história bem engraçada, da qual eu e minha mulher sempre rimos quando lembramos: estávamos vendo o filme “Nouvelle Vague”, de Godard. Trata-se, sem dúvida, de um dos filmes mais confusos deste diretor que, de resto, sempre cultuou um estilo intrincado e obtuso. Ninguém tava gostando, mas não era de bom tom sair no meio da sessão, era quase uma “heresia”, e ninguém queria “pagar o mico” de ser visto saindo do cinema antes do fim. O filme arrastava-se indefinidamente, sem pôr fim à agonia dos espectadores. Eis que um corajoso se levantou, ao que todo mundo lhe voltou o olhar, em grave desaprovação… o sujeito, então, começou a gritar bem alto, “o que que é, este filme é uma bosta, vocês não tem coragem de levantar, é porque são uns trouxas, se acham muito inteligentes, etc., etc”, para o espanto e a gargalhada geral. Aliás, os filmes de Godard me fizeram passar por bons “micos”. Participei da famosa passeata organizada pelo DCE da UFRGS contra a proibição do filme “Je Vous Salue Marie”, cuja exibição foi proibida pela Ditadura, em vista da anatematização da fita pela Igreja Católica. A passeata foi tensa, pois, embora fosse a fase do “degelo”, ainda estávamos em plena Ditadura, e a Brigada Militar acompanhou de forma ostensiva o protesto. Como ápice, o DCE organizou uma sessão para passar o filme que era “super clandestina e secreta” no auditório da Faculdade de Arquitetura. Aí fomos para lá, todos muito tensos com a possibilidade de que a polícia militar invadisse o teatrinho e “baixasse o cassete”. Mas nem foi preciso a intervenção da “repressão”: deu cinco minutos de filme e o pessoal começou a sair, a princípio aos poucos, depois massivamente, dada a chatura da película (rss)… eu saí no meio, e, sinceramente, não sei dizer quantos heróis “agüentaram” até o fim. Outro cinema que era bem freqüentado, neste gênero, era a sala da UFRGS, então recém-inaugurada, e as da Casa de Cultura Mário Quintana. Na UFRGS, eu era fã de carteirinha dos shows do Projeto Unimúsica, que na época ocorriam toda sexta-feira, ao final da tarde, no Salão de Atos, não perdia um, só com artistas locais, não era como o projeto de agora. Foi um grande palco para o pessoal da MPG, e os shows ficavam sempre lotados.    

O Bom Fim, além do cinema, tinha como grande atração os seus botecos e bares. Lembro de ir no Bar Ocidente, logo após a sua inauguração, e já era realmente um grande “point” dos alternativos em geral, sendo, aliás,  habitualmente alvo de “batidas” da Brigada Militar, que botava todo mundo para fora para ser “revistado”; foi uma barra pesada para o estabelecimento, pois a marcação era realmente cerrada, mas felizmente os proprietários “agüentaram no osso” aquela fase persecutória, e a casa continua “bombando” até hoje. Dos botecos “clássicos” do Bom Fim, havia o Bar João (de que o meu pai, como bom jogador de sinuca, era um dos habitués do “turno da tarde”, e eu seguido ia lá para encontrá-lo), o Lola, o Bom Fim… peguei a inauguração da Lancheria do Parque, que eu e um amigo “estreamos” ingerindo sem solução de continuidade três pratos do seu clássico “buffet livre”, então uma espécie de novidade nos bares de antanho (o comum era os almoços chamados “comerciais” serem servidos em pratos feitos, ou “PFs”, também conhecidos como “torpedos”). Havia um outro bar, cujo nome não lembro, que ficava nos altos da antiga Livraria Baiadeira, hoje tem uma imobiliária funcionando no térrreo. O Escaler e o Luar, no mercadinho do Bom Fim, ficavam sempre cheios desta “fauna” variada a que nos referimos. O Escaler, aliás, chegou a fazer um circo de lona, no estilo “Circo Voador” do Rio, que ficava do lado do Gigantinho, e onde rolavam uns shows e festas bem legais. Cheguei a ir numa festa de réveillon e num carnaval lá, baile animado pelo Zezé, meu professor no Clube do Guitarrista Gaúcho. Houve também um outro circo, onde uma vez assisti a um show do Bebeto Alves, que ficava em um terreno próximo ao atual ginásio Tesourinha, que era muito legal idem.  Pra fazer um “rango” no “Bonfa”, além da “Lanchera”, tínhamos o Zé do Passaporte (cujo trailer ficava ainda na calçada onde hoje tem o postinho da Brigada Militar) e o Kripton, que depois se mudou para a Goethe. Aliás, em termos de lanches, além do Trianon (que, à época não era “tão limpinho” como hoje, consistia em um boteco com uma chapa e um belo latão de lixo de metal, postado bem ao lado, onde eram despejadas as cascas de ovo e os talos das alfaces, as gorduras dos bifes e etc.), a grande sensação era o Mac’dinhos (o nosso primeiro Macdonald’s, só que “made in Porto Alegre”), o Cachorro do Rosário (que só existia lá mesmo, e com os pedintes e mendigos “de brinde” de sempre) e os crepes em trailers na Carlos Gomes (estes já eram num padrão mais “sofisticado”, opção mais “burguesia”). Numa época, no espaço da churrascaria da Oswaldo, um restaurante de comida israelense, pois um sabra veio morar aqui um tempo,  depois voltando pra Israel, muito bom. O antigo Serafim (Fedor), neste período, já havia pego fogo e saíra de “circulação”, abrindo apenas uma espécie de “sucursal” na Felipe Camarão, perto da Bento Figueiredo, onde às vezes eu também encontrava o meu pai.

Eu costumava ir muito a shows no Araújo Vianna, que então estava a pleno, sendo um dos palcos principais do pessoal do rock e da MPG. Vi um sem-número de shows de todos os tipos lá, de rock, de MPB, de música instrumental e o que mais fosse. Rolava uma enormidade de shows coletivos do pessoal da MPG e também do rock gaúcho. Era a época do fim da ditadura, e toda hora pintava um “ato-show” em solidariedade a isto ou aquilo ou de protesto, e também foi o despontar do rock gaúcho dos 80, então o velho auditório fervilhava. Foi lá, inclusive, que tive a oportunidade de começar a me apresentar, nos domingos à tarde, num projeto muito legal do diretor do auditório da época, o professor Rui, que abria espaço para os músicos iniciantes. Depois, com diversos amigos, nos reunimos para realizar o show coletivo “7 na 6ª” (eram sete artistas/grupos, e o show era na sexta-feira) lá mesmo, isto deve ter sido por 1984. Bem na esquina da José Bonifácio com a Santa Terezinha, tinha o bar Café com Leite. Eu ia bastante ali ver o Léo Henkin e o Ralfe Peruffo tocarem, e também o Edu Natureza, o Nando Gross, o Giba Giba, o Toneco, o Galileu Arruda, o Nei Lisboa, o meu professor de violão Roberto Thiesen, e muita gente boa mais. Numa ocasião, deu um baita quebra-quebra: num dos shows marcados pelo Robertinho do Recife, em sua fase metaleira, o espetáculo foi cancelado, e a metaleirada do Bom Fim, inconformada, quebrou tudo, os bancos de madeira, foi um escarcéu. Outro show mágico que fui lá foi o do Hermeto Paschoal, mas realmente foram muitos shows bons vistos.

Quanto à Esquina Maldita, naquela época já estava meio “out”, e eu só ia lá de vez em quando com o pessoal da minha faculdade que era mais engajado, pra tomar um chopp.

Adentrando o Bom Fim, um bar que às vezes eu ia era o Vermelho 23, que ainda está na ativa, e que sempre tinha boa música. Havia um bar que ficava às escuras, se não me engano era na Felipe Camarão, iluminado por velas, acho que o nome era “Feito à mão”, mas não tenho certeza. Nas proximidades da Independência ficava o restaurante Lugar Comum, sempre com música de ótima qualidade, geralmente instrumental. Posteriormente, no segundo piso da casa, foi aberta a célebre “Sala Jazz Tom Jobim”, na qual cheguei a me apresentar, já nos anos 90. Na independência, era comum vermos shows nacionais bem legais no Teatro Leopoldina, que depois virou o Teatro da Ospa. Um outro bar que, a princípio, era mais de MPB, mas que depois passou a dar espaço a shows de bandas de rock, e que eu freqüentava, foi o Theatro Mágico, que ficava na descida da Tomás Flores.

A minha “rota” mais comum, contudo, era a da Cidade Baixa, pois ali se concentrava de forma mais preponderante o pessoal próximo ao meu perfil, que era de estudante universitário e fã de MPB. Eu era frequentador do Bar Marcelina, que ficava originalmente na rua Sofia Veloso, e depois mudou-se para a José do Patrocínio. Era um bar muito legal, porque reunia, entremeada entre o público em geral, uma legião de artistas, a maioria desconhecidos como eu, propiciando conhecer muita gente legal e talentosa: o bar formalmente não tinha música ao vivo, mas sempre havia um violão e fazíamos muitas rodinhas, cada um tocando um som, mostrando as suas músicas para os amigos, era bem legal. Encontrava-se lá seguidamente artistas que considerávamos “famosos”, como o pessoal do Raiz de Pedra, Wesley Cool, Jimi Joe, e muitos outros caras que faziam sucesso na cena musical de Porto Alegre naquele período. E lá eu convivi com muitos amigos queridos e talentosos como Auriu Irigoite, Glei Soares, Henrique Wendhausen, Dedéia, Eleu, Iran Rosa, Edmar Fabrício, Cléber Fiorentin, Mário Marmontel e tanta gente mais. Outro lugar legal de ir era a Terreira da Tribo, na José do Patrocínio: eu e o Auriu chegamos a nos apresentar lá, no “Bar da Terreira”, em um show acústico. Sinceramente, embora seguidamente eu circulasse na área, nunca tive coragem de assistir uma peça no Teatro da Terreira, pois alguns amigos que o haviam feito contavam que haviam servido de alvo dos atores em cenas escatológicas, não sei se era verdade, mas na dúvida não queria arriscar. Eles faziam lá uma cerveja “natural”, que era bem comparável àqueles remédios da grife fitoterápica “cibecol” (lembram? O amargor é inesquecível). Ali próximo, indo pra direita, ficava o “Caminho de Casa” (no segundo andar, onde hoje há uma imobiliária no térreo), também um lugar legal, em que os músicos fixos eram geralmente o Xico Mestre e o Daniel Sá, e seguido eu e minha turma íamos lá “dar uma canja”. Indo para a esquerda, havia o João de Barro, que era um bar de música nativista; isto era uma coisa legal, nos anos 80 o nativismo virou uma coisa meio pop, e mesmo nós, que éramos bem “urbanos”, gostávamos de ir às vezes neste tipo de lugar, inclusive no Recanto do Tio Flor, na Getúlio Vargas… havia também um outro bar em que a gente ia, que era perto da Mariante, senão me engano chamava-se Macanudo, só lembro de ver o Sérgio Rojas, e o Neto Fagundes, tocarem lá… ali nunca nos deixavam “dar canja”, pois tínhamos visual típico de “magrinhos do Bom Fim”, e certamente o pessoal tinha medo que nós déssemos “bola fora”, saindo do “script” e do repertório usual da casa. Na calçada da José do Patrocínio, também houve, durante um tempo, o bar Delírio Lilás, que passou a abrigar diversos shows legais do pessoal de Porto Alegre, lembro de ter visto ali pela primeira vez o Quintal de Clorofila, da dupla dos irmãos Arbo, de Santa Maria, entre muitos outros shows. O Zelig, na Sarmento Leite, estava começando, mas já era uma ótima opção, o que segue ocorrendo. Seguindo em direção à Venâncio, na José do Patrocínio uma parada obrigatória era o bar Tigela de Barro (ou será panela?), onde a Adriana Calcanhotto estava dando os seus primeiros passos, já com muito sucesso. Ali eu dava “canjas” também, e fiquei amigo dela. Indo em frente, mas dobrando à direita, estava o antigo Opinião, onde muitos músicos tocavam, como Totonho Villeroy, Nando Gross, Paulo Gaiger, e eu costumava ir lá pra “dar uma canja”. Falando em “canja”, havia, no lado oposto da José do Patrocínio, bem perto da Sarmento Leite, uma famosa casa “mata-larica” que servia o prato, e também qualquer tipo de sopa, muito frequentada pela galera.  Mas voltando, mais adiante, já na própria Venâncio Aires, ficava o Pecados Mortaes, bar em que, segundo a Adriana, naquela época era o seu “sonho de consumo” tocar (e em homenagem ao qual chegou a fazer uma música). Mas, em verdade, este bar não era muito diferente dos demais: muito barulho, fumaça de cigarros, garrafas de cerveja nas bandejas dos garçons que iam pra lá e prá cá, uma certa azaração e um pobre músico tentando “fazer a sua arte”, não raramente pra “ouvidos moucos” (cabe dizer aqui, para o “público leitor nacional”, que estes bares não eram muito diferentes daqueles do Baixo Leblon, no Rio, ou da Vila Madalena, em Sampa). Aliás, ali  vivi uma história bem engraçada: como o bar estava lotado, eu estava do lado de fora; nisto encostaram duas moças bem bonitas, uma loira e outra morena, vestidas como se fossem sair pra noite, com vestidos e tudo, o que destoava em muito do figurino do ambiente, bem casual; eu, por minha vez, vergava  meu habitual traje “chinelão-estudantil”: calça jeans comprada na Voluntários da Pátria surrada, camiseta de movimento estudantil e tênis velho, cabelos despenteados e barba desgrenhada; pra meu espanto, uma das moças, muito simpática e bem-falante, puxa assunto comigo, e papo vai, papo vem, me convida a levá-las pra outro lugar; eu, lógico, aceitei, embora não estivesse acreditando muito na minha sorte grande; depois de um certo tempo de conversa no tal outro bar, eis que a moça abre o jogo: “olha só, a gente viu que tu és um cara “do bem”, estudante de Direito, limpeza, é que a gente é da delegacia de narcóticos, e tava dando uma incerta, sabe como é, nós também somos estudantes de Direito, etc.,etc… bom, pelo menos tava explicado o “prêmio de loteria”… evidente que eu não “me dei bem” com elas, e tão logo deu uma “brecha”, disse tchau sem reclamar, agradecendo aos céus por “escapar ileso e com vida”. A esmola, quando é demais, o santo desconfia.

Já quando da volta de meu roteiro “Cidade Baixa”, eu costumava passar no Pedrini ou no Bar do Beto, este então localizado na esquina com a rua do quartel, e mais perto do quartel havia o Fazendo Artes, bar em que também costumava ir ver a Adriana tocar, num período posterior. Também havia um barzinho legal com música ao vivo, bem defronte do atual Bar do Beto. Mas voltando pra Cidade Baixa propriamente dita, o entorno da esquina da Lima e Silva com a República, que hoje está sempre fervilhando de gente, também tinha opções legais, como, por exemplo, o Gota D’água, dentre outros bares. O Gota D’água (hoje onde funciona um café) era um fenômeno: não sei como conseguia entrar tanta gente num espaçozinho tão pequeno, mas certamente os copos de vinho branco de garrafão nos faziam abstrair destes detalhes, para nos concentrarmos na rodinha de violão. Não era raro que, dependendo da música, de repente todo o bar parasse com as conversas paralelas e entoasse em uníssono a música que alguém cantava. O Van Gogh já estava localizado ali, e é um dos poucos bares daquela época que continua na ativa, e ainda é praticamente a mesma coisa. Lá pelos lados da Getúlio Vargas, eu gostava de ir no Viva Maria, onde tocavam o Plauto Cruz e o João Pernambuco, e também na Cia. de Sanduíches, ouvir uma boa MPB. Mas havia ali uma série de bares cujo nome não me lembro, também neste estilo. Outro bar bacana de ir era o Purpurina, do Jerônimo Jardim, onde eu via tocar o Antônio Villeroy e o Pedrinho Figueiredo. Havia também o Vinha D’alho e o Carinhoso, bares de uma boemia mais tradicional, sempre com boa MPB. Uma vez, a muito custo, eu e uns amigos conseguimos entrar no Chipp’s, que era conhecido como “point” de cassação (a palavra, corretamente grafada, deveria ser “caçação”, pois vem de caça, mas o corretor do computador “sublinha”, e, convenhamos, fica estranho). É que havia uma “reserva de mercado” da mulherada por parte de alguns habitués, em favor dos quais o porteiro não permitia a entrada de outros “machos”… a entrada da mulherada, é claro, era “de grátis”, pois o local era de “catigoria”. Mas sinceramente não gostei muito do estilo daquela casa noturna, e nunca quis voltar lá. Hoje o Chipp’s é diferente, virou uma danceteria mais voltada para casais, mas naquela época era um barzinho com música ao vivo à base de voz e violão. Havia, ali perto, mais pro lado da Venâncio, o Rocket 88, do Mutuca, onde bandas como os Garotos da Rua iniciaram.

Surgiram também, mais ou menos nesta época, várias danceterias vinculadas ao rock. Uma que eu costumava ir muito era no Taj Mahal, lá na Farrapos, descendo a Santo Antônio. Lembro de uma vez em que fui ver o show da banda argentina Dragon, na qual o Mitch Marini assumiu o baixo. Eu tava tão duro que, após pagar o valor do ingresso, tive que tomar a água da pia do banheiro, pois não sobrou mais nada, e voltar a pé (o que era comum, não tínhamos tanto medo de ser assaltados, mesmo andando em ruas escuras e ermas na “madruga”,  estes infortúnios eram bem mais raros)… bons tempos. O brinde era o banho de piscina, mas sinceramente nunca tive coragem de pular lá dentro, mesmo porque aquela já devia ter sido usada “historicamente” para fins escusos, quando o local abrigava casas do gênero tão típico daquela região da cidade, “sabe como é, seguro morreu de velho”. Mas, fora de brincadeira, devia ser limpinha, pois o Ricardo Barão e Cia. mantinham a casa no capricho; eu é que achava meio estranha a idéia de pular em uma piscina de madrugada, mas bem que dava vontade.

O Porto de Elis (na subida da Protásio Alves, bem perto do Barranco) também marcou época, e destacava-se muito pelos shows de qualidade que promovia. No “caminho do meio” entre o Bom Fim e Petrópolis, havia o Tivoli, um bar de estilo “boemia das antigas”, mas que também contava com boa música. Já a subida da Protásio (refiro-me à parte lá pros lados da Carlos Gomes), nesta época, havia perdido em boa medida o posto de um dos principais “points” noturnos de Porto Alegre, que chegou a ter nos anos 70, sendo um local em que eu ia mais eventualmente. Mas nesta época chegou a funcionar um bar lá, o Bangalô, onde, ao que parece, o Nenhum de Nós começou a tocar.

Na época, a zona noturna das classes “mais privilegiadas” preferencial era a 24 de outubro e seu entorno. Diante do que adiantei no início, não seria preciso dizer que eu dificilmente ia lá, mas nas vezes em que fui também encontrei algumas opções boas, como por exemplo o Kilt Pub e o Kafka (no local depois funcionou o Zappa, e atualmente está o Bodega). Lá pros lados da Cristóvão Colombo, também tinha bons bares, mais próprios pra tomar um chopp, como o Walter, o Vassouras, o Sebastian e o Bar Um. 

Enfim, certamente estas mal traçadas linhas não servem como um retrato mais fiel da noite de Porto Alegre do início dos anos 80, e tampouco eu poderia dizer que os endereços que lembrei correspondiam ao “melhor da noite gaúcha”. Longe disto, pois muitos destes lugares não eram necessariamente tão descolados e muito menos eram sofisticados. Estas escolhas, como disse, evidentemente passaram pelo meu gosto pessoal e até pelas condições monetárias para “fichar” (que na época eram praticamente nenhumas)… mas certamente estes lugares evocam lembranças de uma época legal de minha vida, e, afinal de contas, acho que é isto que interessa, recordar de endereços em que a gente se sentiu bem.

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Lançamento do livro “Woodstock em Porto Alegre”, de Rogério Ratner

 

 

Está sendo lançado pela “Já Editores” o livro “Woodstock em Porto Alegre”, de Rogério Ratner. A obra, no formato de “e-book”, resgata a história do programa que o radialista Júlio Fürst (que hoje apresenta o programa “Fim de Tarde” na Itapema FM) produzia na Rádio Continental AM, nos anos 70, e no qual ele encarnava o personagem “Mr. Lee” (o programa era patrocinado pelas calças LEE, em face de uma joint venture estabelecida com as fábricas Renner). Nesse programa o radialista passou a veicular o trabalho de músicos independentes de Porto Alegre, que se apresentavam no MUSIPUC, principal festival estudantil que havia na capital gaúcha, e outros artistas iniciantes e então desconhecidos do público, em gravações que eram feitas artesanalmente nos próprios estúdios da emissora.

Na sequência da grande audiência do programa, Júlio promoveu shows coletivos que foram um tremendo sucesso, e praticamente “inventou” a cena musical urbana moderna da capital gaúcha nos anos de 1975 e 1976. No programa apresentado por Júlio surgiram os Almôndegas (grupo de Kleiton e Kledir), o grupo Utopia (de Bebeto Alves), as bandas Byzarro, Bobo da Corte, Flor de Cactus, Gilberto Travi e o Cálculo IV, Em palpos de Aranha (de Cláudio Levitan e Giba Giba), Afrosul (de Paulo Romeu), Emergência, Mercado Livre (de Calique, Garay e Pedro Guisso), Inconsciente Coletivo (de João Antônio Araújo e Xandy Vieira), Hallai Hallai, Mantra (liderado por Zé Flávio), além de compositores como Nelson Coelho de Castro, Hermes Aquino, Fernando Ribeiro, Gil Gérson, João Schu, Élbia Solange e  um sem número de outros artistas que fizeram sucesso local e, em alguns casos, nacional. O livro também traça um painel geral do cenário da música popular urbana gaúcha na década de 70, enfocando iniciativas paralelas tais como as Rodas de Som organizadas por Carlinhos Hartlieb e o Musipuc. Há também trechos dedicados aos Discocuecas, grupo inovador no formato música/humor, integrado pelo próprio Júlio Fürst, por Beto Roncaferro, por João Antônio e Gilberto Travi. Foram mais de dez anos de pesquisa, envolvendo entrevistas feitas com músicos, jornalistas e radialistas de nomeada da cena porto-alegrense.

Aqui vai o link com um texto que resume a saga do “Mr. Lee”:

http://bandasdorockgauchoforever.musicblog.com.br/41309/Woodstock-em-Porto-Alegre/

Para adquirir o livro, que custa R$ 15,00, basta acessar o link abaixo, no site da Editora Já.

https://www.jornalja.com.br/loja/inicio/35-woodstock-em-porto-alegre.html

Abaixo  links mostrando o movimento do Mr. Lee, focados especialmente no show realizado no Auditório Araújo Vianna, em 1975, ao qual faz alusão a ilustração da capa, feita pelo artista plástico e cineasta Jonas Rabello Kirschbaum.

Rogério Ratner é escritor, cantor, compositor e radialista. Tem 03 CDs autorais lançados, e parcerias com Martha Medeiros, Letícia Wierzchowski, Paula Taitelbaum, Ricardo Silvestrin, Ronald Augusto, Cíntia Moscovich, Fabrício Carpinejar, Celso Guttfreind, Emílio Pacheco e Arnaldo Sisson. Suas músicas foram interpretadas por nomes como Ana Krüger, Karine da Cunha, Rafael Brasil, Dudu Sperb, Monica Tomasi, Lúcia Severo e Adriana Marques.

Rogério edita os blogs http://bandasdorockgauchoforever.musicblog.com.br e https://bandasdorockgauchoforever.wordpress.com/,

dedicados à música gaúcha de todos os tempos e em todas as suas vertentes. Produziu e apresentou programa Paralelo 30 na Rádio Buzina do Gasômetro, dedicada exclusivamente à música gaúcha em todas as suas tendências. Foi colunista de música do Jornal Usina do Porto. Já publicou diversos artigos enfocando a música feita no RS em todas as épocas e estilos para inúmeros sites e blogs, tais como Território da Música (Terra), Overmundo, Artistas Gaúchos, Tambor (da Procempa, Prefeitura Municipal de Porto Alegre), Rock press, Dissonância, Whiplash, dentre vários outros.

Site oficial

http://www.rogerioratner.com

 

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Matéria da Zero Hora sobre o disco Rock Garagem

Matéria na Zero Hora sobre o antológico disco Rock Garagem, produzido por Ricardo Barão.

http://zh.clicrbs.com.br/rs/entretenimento/noticia/2014/06/ha-30-anos-lp-rock-garagem-colocou-o-rs-no-mapa-da-musica-jovem-brasileira-4532980.html#showNoticia=cGtyOSY2ZnoxNDU3NzQ0MzUxNDI0Njk2MzIwKmk9NDk3OTE4NzAwNjY2MzI0NjAwNGl4cTc2MTA2MTAyNTIyMjgwNjczMjhZZzFMfWdjWTtTKUk+Sn0lNmM=

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Woodstock em Porto Alegre

por Rogério Ratner

Blog de bandasdorockgauchoforever :bandas do rock gaúcho forever, Woodstock em Porto Alegre

VIVENDO A VIDA DE LEE –WOODSTOCK EM PORTO ALEGRE
por Rogério Ratner

“É Lee, é calça Lee, é Lee, é calça Lee…” (baixa o som do jingle, entra a voz com eco, com muita energia e rapidez na dicção): ”na superquente Continental, o novo movimento, o som daqui, já gravado no estúdio 2 da superquente, especial para Mr. Lee em concerto, isso é viver a vida de Lee, é você estar ligado na Continental, ao natural, curtindo o que os nossos têm pra nos dizer, gente daqui, o novo movimento, a força do som local (…)”; “superquente Continental, fique parado aí xará, é gente nossa, som feito aqui no Porto, aqui na superquente com Mr. Lee, os melhores da música do sul do país, o som que levou mais de cinco mil pessoas para o Araújo Viana, pra curtir o Concerto número II, você está sintonizando, curtindo a superquente (…)”; “Lee, a proposição de uma força nova, uma coisa daqui, com a força total da superquente Continental (…)”. (“Living the life of Lee, living the life of Lee…”, baixa o jingle, entra a voz): “Vivendo a vida de Lee, o importante é você olhar pra uma Lee e saber que é Lee, Mr. Lee em concerto, pra você ficar por dentro do que está acontecendo de bom, um trabalho de estrutura, pra você curtir o som local, valorizar a nossa música, saca o som, o ritmo autêntico, o recado natural, com a liberdade de Lee, saca a força desta guitarra (…)”; “isso é viver a vida de Lee, é você estar ligado na Continental, ao natural, gente daqui, do novo movimento, a força do som local, um lançamento de Mr. Lee para todo o sul do país, Mr. Lee em concerto, dando força para os novos talentos, saca o som, o recado (…); “pra qualquer hora, qualquer lugar, em qualquer tempo, Lee jeans, veio de muito, muito longe, andou muita estrada pra ficar junto de você, jeans, a roupa que dá consistência ao corpo e “guenta” o tirão, pra você curtir a total liberdade num mundo todo azul, prestigie e valorize os nossos músicos, “vamo” curtir o recado, com Mr. Lee em Concerto, dando força para os novos talentos, a onda 1120 superquente Continental, com 20 Kilowatts transistorizados…”

Quem viveu na década de 70 em Porto Alegre e era jovem – ou criança, como eu, que tinha por volta de dez anos, à época – certamente nunca mais se esqueceu da voz e da animação incontrolável do Mr. Lee, captada em nossos incipientes radinhos de pilha, ou então nos velhos rádios e eletrolas dos “coroas”. Mr. Lee – personagem hoje mítico no imaginário das novas gerações do “som local” e na lembrança de seus contemporâneos setentistas, que a princípio deveria corresponder a um cowboy americano, mas que aos poucos foi se transmutando em um legítimo “magro do Bomfa” (O Bomfim é o bairro onde aconteceram alguns dos principais agitos artísticos e musicais dos anos 60 em diante em Porto Alegre, e está intimamente ligado, enquanto cenário, ao rock e à música popular feitos na capital gaúcha), encarnado de corpo e alma pelo genial radialista Júlio Fürst, na igualmente espetacular e revolucionária Rádio Continental AM, emissora pertencente ao Sistema Globo de Rádio.
A Rádio Continental AM, que já existia desde os anos 60, mas que era uma emissora com programação semelhante a das rádios AM do interior, sem uma direção clara em sua programação, foi adquirida pelo Sistema Globo de Rádio no final dos anos 60. No início dos 70, Fernando Westphalen e Marco Aurélio Wesendonck assumem o comando da emissora, e recebem carta branca para repaginá-la. Assim, surgiu no dial portoalegrense uma proposta nova, sendo a Continental um dos primeiros veículos a apostar na segmentação da audiência jovem, uma vez que as demais rádios AM, de um modo geral, atuavam no esquema que ainda é atualmente utilizado naquela faixa de emissão, de notícias, entretenimento, esportes, política, etc., para o público em geral, não separado por faixas etárias. A Continental então traçou o “mapa da mina” cujos rastros foram seguidos a partir do início da década de oitenta por diversas rádios FMs na capital dos gaúchos e em seu entorno – quando a música jovem trocou de faixa no dial do AM para o FM -, formato que se alastrou por todos os “rincões do pampa” e que, guardadas as proporções, vigora até hoje. Além de Júlio, a rádio contou com diversos disk-jóqueis inovadores, tais como o Cascalho (a quem se pode atribuir a paternidade da expressão “magrinho”, tão em voga na Porto Alegre da época, e que identificava a “galera” jovem), Clóvis Dias Costa, Beto Roncaferro (que era o programador musical da rádio), entre outros. Veiculava também um programa dos então professores do cursinho pré-vestibular IPV, José Fogaça (atual Prefeito de Porto Alegre) e Clóvis Duarte (Programa Câmera Dois, na TV Guaíba). Inovava na locução, na linguagem, na informalidade de seus locutores e apresentadores, no marketing, na propaganda- que era feita especialmente para ser rodada em suas ondas -, contava com o comentário diário do escritor Luis Fernando Veríssimo, entre muitas outras novidades, sendo a primeira emissora “cientificamente” criada no Sul especialmente para o público jovem e universitário. Isso numa época em que tudo no país era muito “quadrado”, o Brasil estava em plena ditadura militar, momento da vida nacional em que o “É proibido proibir” do maio de 1968 descambou no pesadelo do “Nada é permitido, inclusive pisar na grama”. E a Continental não raras vezes bateu de frente com a ditadura e sua famigerada censura, tendo inclusive sido retirada do ar em determinados ocasiões, além de ter que conviver diariamente com o “bafo” dos censores.
Analisando-se o fenômeno em que se constituiu esta rádio – e sem embargo quanto a todos os seus inegáveis méritos e o papel de vanguarda em diversos aspectos, como já assinalado -, observa-se que o trabalho de Júlio Fürst na Continental indiscutivelmente se revestiu de um caráter único, não apenas pelo estilo próprio de apresentar o seu programa, mas também pela proposta que destemidamente bancou junto aos diretores da emissora, que trouxe conseqüências espetaculares para o desenvolvimento e a divulgação do rock gaúcho e da MPB feita no sul.
A história começa mais ou menos assim: Júlio, que é baterista, atuava em um conjunto melódico (tocavam em bailes e festinhas) nos anos 60, e no início dos 70 teve uma loja de discos na Avenida Independência, então um dos points da juventude portoalegrense. Um amigo seu -que veio a ser proprietário de inúmeras casas noturnas famosas na capital gaúcha-, indicou-o para trabalhar na Rádio Pampa AM, que tentava fazer frente à monopolização que a Continental estava obtendo frente ao público jovem das classes A e B (e parte da C). O trabalho de Júlio chamou a atenção da Continental, e após um tempo ele e o seu “fiel escudeiro” Beto Roncaferro se foram de “mala e cuia” para a concorrente. Inicialmente, Júlio apresentava um programa de soul/funk americano, encarnando “Julius Brown”, um negão “típico” do Bronx que transmitia em português, embora o locutor seja um indisfarçável descendente de alemães. Chegou a discotecar festas no Clube Floresta Aurora (entidade quase que exclusivamente freqüentada pela comunidade negra da capital, que fazia festas semelhantes aos bailes realizados no Rio nos anos 70, em que vicejavam Banda Black Rio, Cassiano, Tim Maia, etc.), caracterizado como “negão black” clássico, ladeado por duas dançarinas com cabeleiras black power, na maior cara-de-pau. Então, ocorreu que, à época (início de 1975), a fábrica de roupas gaúcha Renner (da qual se originaram as Lojas Renner, hoje uma cadeia nacional) decidiu estabelecer uma espécie de franchising com a Lee americana, para produzir no Brasil as calças jeans como “originais”, tendo em vista que até então as calças da marca que circulavam por aqui eram todas importadas. Nos EUA, a Lee já tinha um programa transmitido coast to coast de música country, inclusive promovendo shows ao vivo. A Renner, que queria justamente penetrar na faixa de mercado do público jovem, propôs à Radio Continental que a emissora produzisse e transmitisse um programa nos moldes do americano. Então, “Julius Brown” foi aposentado e Júlio Fürst passou a encarnar o “Mr. Lee”. Desta forma, a partir de abril de 1975, Júlio apresentava (narrando em português, obviamente) o programa do Mister Lee, encarnando uma espécie de cowboy brasileiro e veiculando country americano. Em julho daquele ano, Júlio foi convidado para ser jurado do Musipuc, o festival mais importante de música universitária que se realizava na década de 70 em Porto Alegre. Encantado com a qualidade dos trabalhos que viu e ouviu ali, teve a idéia luminosa de propor à direção da Continental que os artistas locais gravassem suas músicas no próprio estúdio da Rádio, no gravador de dois canais constantes do Estúdio B, e que as músicas passassem a rodar em seu programa. Os diretores acharam a idéia um pouco maluca, e disseram que o risco seria do próprio radialista, caso aquilo redundasse num fracasso de audiência. Júlio, corajosamente, decidiu abraçar a “bronca”.
A proposta – que inicialmente consistiu na oportunidade de os músicos registrarem de forma semi-profissional seus trabalhos, gravando suas canções nos estúdios da própria rádio, numa época em que Porto Alegre não era dotada de estúdios efetivamente profissionais, e, melhor ainda, com a veiculação iterativa e efusiva das gravações no programa do Mr. Lee, e, posteriormente, inclusive na programação normal da rádio – desembocou em um verdadeiro movimento musical sem precedentes na cena portoalegrense, que não somente ganhou o Estado, como inclusive marcou presença no Paraná, apresentando o trabalho dos gaúchos aos paranaenses, e vice-versa. Foram shows e caravanas de músicos pelo sul do país, com auditórios lotados e, não raro, tumultos e fãs histérica(o)s. Quando os artistas apresentavam-se nos shows denominados “Mr. Lee in Concert”, subiam ao palco não raro tendo a platéia “na mão”, uma vez que o público jovem já conhecia as músicas por ouvi-las reiteradamente antes na rádio, não raramente cantando junto as canções. Nestes shows – e nos shows individuais e coletivos que os artistas passaram a fazer a partir daí – havia uma total identidade entre os espectadores e os artistas, assim como eles, jovens típicos da classe média gaúcha (e de outras classes também). Geralmente os artistas e o público estavam imbuídos das mensagens de “paz e amor”, de sonhos e utopias, nos rastros do movimento hippie e de outras viagens típicas dos anos 70. Além disso, as apresentações eram recheadas de toques sobre a “liberdade” e o vazio do mundo do consumo, mensagens que, diga-se de passagem, tinham que ser muito bem metaforizadas para conseguir “passar” pela censura. Os shows, guardadas as proporções, eram traduções miniaturizadas de Woodstock, festival americano no qual Júlio procurou se inspirar, e em vários aspectos eram mesmo correlatos deste. É claro que não tinham e nem podiam contar com toda a estrutura, a “piração” e liberdade vigorantes nos EUA dos 60, afinal ainda estávamos em plena ditadura, e a própria reunião de um grande número de jovens em um local fechado já era muito mal vista pelos censores, que exigiam que o radialista e os músicos lhe submetessem previamente o conteúdo do que iam falar ao público. Mas com certeza, em termos de número de atrações, qualidade, variedade, duração dos shows (o show no auditório Araújo Vianna durou uma eternidade) e animação, havia sim semelhança com o grande festival americano, guardadas as proporções, enfatiza-se. É preciso destacar também que, naquela época, meados dos anos 70, em que reinavam soberanos os vinis, os discos independentes eram raríssimos, limitando-se a eventuais e bissextas “matérias pagas” de algum “incauto” ou “milionário”, de forma que o esquema do Mr. Lee proporcionou que artistas amadores (em termos profissionais, não em questão de qualidade musical) e independentes pudessem registrar o seu som e divulgar de forma totalmente gratuita o seu trabalho, sem qualquer esquema de jabá ou coisa que o valha, muito ao contrário. Pra não fugir da regra, tudo isto somente aconteceu porque na hora certa estava no local certo a pessoa certa, com a atitude certa. Sem dúvida, se não fosse a coragem pessoal do Júlio Fürst, então no início de sua promissora carreira profissional de radialista e apresentador (a que, após este ciclo, deu continuidade, já despido do personagem, mas de forma não menos brilhante, na própria Continental e em diversas FMs da cidade, sendo que atualmente desempenha na Rádio Itapema FM), nada disso teria acontecido. É preciso lembrar que os fatos a que fazemos alusão ocorreram num cenário em que não havia significativas apostas em artistas jovens locais por parte da mídia – com raras exceções de incentivadores, tais como o grande radialista Glênio Reis, Pedrinho Sirótsky e o seu Transassom, bem como o suporte dado pela mídia escrita, especialmente por Juarez Fonseca, Maria Wagner, Osvil Lopes e Nei Gastal -. O contexto do mercado musical gaúcho era tal que os talentos surgidos inevitavelmente tinham que migrar para o centro do país para obter maior projeção e o merecido reconhecimento, sem que gozassem ainda de um ilimitado prestígio por aqui, tal como ocorreu nos anos 60 com Elis Regina e com o Liverpool (banda de rock tropicalista que na década seguinte deu base ao também lendário Bixo da Seda). E é justamente por conta desta realidade local, que a postura que Júlio decidiu abraçar com unhas e dentes se afigurava então uma incógnita, e se apresentava virtualmente temerária, não apenas comercialmente para a Rádio Continental, mas inclusive para o próprio futuro profissional do radialista. Com efeito, não havia muita referência acerca da viabilidade comercial desta proposta inovadora, à época, mas é indubitável hoje que, se não fosse pelo pioneirismo de Júlio e dos diretores da rádio, que respaldaram a sua idéia, certamente o mercado local de música em Porto Alegre não seria o que depois veio a ser, e tampouco o que é hoje. E o que chama mais atenção, e que nos revela que a coragem foi ainda maior do que se poderia inicialmente supor, é a extrema qualidade dos trabalhos veiculados, o que indica que a diretriz era no sentido de se promover um verdadeiro nivelamento “por cima” junto ao público. De fato, Júlio não “facilitava” para o público, não nivelava “por baixo”, não “empurrava” músicas fracas e escancaradamente comerciais “goela a baixo”, em busca de maior penetração junto à audiência. Ao contrário, os trabalhos musicais que o Mr. Lee apoiava não ficavam em nada a dever em relação ao que era produzido de melhor, à época, no resto do país, em termos de MPB, Pop e Rock. Júlio, com sua audácia e originalidade, demonstrou que era (e é) possível sim veicular música jovem de qualidade feita em Porto Alegre e obter com isso respaldo popular e resultados comerciais em termos de faturamento da emissora.
Infelizmente, o programa do Mister Lee deixou de ser produzido em face do desacordo havido entre a empresa patrocinadora e a direção da rádio, quanto aos valores do contrato de publicidade. Deste modo, Júlio já entrou o ano de 77 não mais como o cowboy, mas como “Mestre Júlio”, e sem o “gás” que o patrocínio proporcionou em termos de respaldo para a produção dos shows, que por serem coletivos e durarem horas a fio, envolviam altos custos. O fim do programa, em que pese a força que o radialista e o restante da equipe da rádio continuaram dando ao som local, representou um considerável revés para alguns dos trabalhos musicais que eram divulgados naquele espaço. Alguns outros artistas da cena conseguiram manter uma projeção ascendente em suas carreiras, em que pese tal fato.
Não seria arriscado dizer que possivelmente muitos de nós hoje não conheceríamos os excelentes músicos que afloraram daquela geração portoalegrense e gaúcha, que Júlio catapultou em seu programa e nos shows que promovia. Alguns destes artistas, se não fosse a ousadia do seu “empurrão” inicial, talvez não se tornassem tão famosos nacionalmente no futuro, tais como Kleiton e Kledir (então membros dos Almôndegas), Hermes Aquino (é, aquele mesmo da Nuvem Passageira) e Joe (roqueiro que começou pela MPB, vencendo uma das linhas da Califórnia da Canção, festival de música regionalista gaúcha, como Zezinho Athanásio, depois transmutando-se em “Joe Euthanásia” – observação: não chegou a participar de show do Mr. Lee, mas era rodado no programa), e Mauro Kwitko (autor de algumas das pérolas do repertório de Ney Matogrosso em sua carreira solo). Além, obviamente, talvez não viessem a obter projeção tantos outros nomes importantes que surgiram naquele período, tais como Fernando Ribeiro, Gilberto Travi, Inconsciente Coletivo, Nelson Coelho de Castro, e muitos mais. Mas não apenas isso, se não tivesse acontecido o movimento capitaneado pelo Mr. Lee -naqueles frenéticos dois anos aproximadamente em que o programa foi ao ar, do meio para o fim da década de 70-, não seria delírio pensar que muitos outros trabalhos importantes como os de Nei Lisboa, Bebeto Alves, Gelson Oliveira, Totonho Villeroy, Vitor Ramil, Júlio Reny, Jimi Joe, Wander Wildner, Frank Jorge – ou seja, um espectro que abrange o próprio Rock Gaúcho dos Anos 80, que estourou Brasil afora -, talvez não houvessem obtido tanta repercussão no futuro. Ocorre que vários dos radialistas importantes surgidos na década seguinte (a grande maioria inclusive hoje ainda na “ativa”), que deram o “empurrão” inicial necessário para impulsionar as carreiras destes músicos, eram fãs dos programas veiculados na Continental, e foram influenciados de alguma maneira pelo “modelo” do programa do Mister Lee, adotando a mesma postura de divulgar e apoiar valores locais novos em suas respectivas rádios FM. Pode-se rastrear a influência da Continental AM, ainda que de forma reflexa, na formatação das rádios Ipanema FM, Atlântida FM, Unisinos FM (notadamente em sua versão inicial, mesmo porque o seu criador assim o declarava), Band FM (o manager Kamarão também reconhece a influência), Gaúcha FM (atualmente Itapema), Pop Rock e FM Cultura (especialmente na época em que Zé Flávio foi o Diretor de Programação). Ou seja, nas principais estações de música jovem, rock e mpb da capital gaúcha.
Seguem abaixo alguns dos trabalhos e artistas veiculados pelo Mister Lee e pela Rádio Continental AM nos anos 70 ligados ao rock (ou ao pop rock, ou à MPB mais ligada ao pop). Não é ocioso registrar que, em entrevista pessoal que Júlio Fürst me concedeu, perguntei-lhe porque o Bixo da Seda, então o principal nome do Rock Gaúcho, não fez parte do “circo” do Mr. Lee. Segundo Júlio, isso deveu-se ao fato de que, embora tenha feito o convite ao empresário da banda, o mesmo pediu uma alta soma à guisa de cachê, o que a produção não tinha condições de cobrir, tendo em vista que os valores alcançados pelo patrocinador mal suportavam os custos de produção, sendo que os artistas (não raro dez ou doze bandas por evento) rateavam apenas o que sobrava, após o abatimento dos gastos, da renda da bilheteria.

– Inconsciente Coletivo: banda que misturava folk e mpb num formato “Peter – Paul – Mary “, com João Antônio (atualmente dono do Abbey Road, uma das principais casas de shows musicais de Porto Alegre, na qual é sócio de Júlio Fürst), Alexandre (um dos proprietários do Sargent Peppers, outra casa noturna importante da cidade) e a (psicóloga) Ângela. Um som suave, com violas e vocais, bem legal, em que se destacavam as músicas “Voando Alto” e “Terras Estranhas”, gravadas em um compacto lançado em 77 pela gravadora carioca Tapecar.
– Bizarro (posteriormente Byzarro): banda de rock progressivo, hard rock, jazz e o que mais pintasse. Criada nos anos 60 sob a alcunha de Prosexo, contou em sua formação com Carlinhos Tatsch (guitarra), Gélson Schneider (baterista, que posteriormente pertenceu às bandas Trovão, Swing e Câmbio Negro), Mário Monteiro (baixo) / Mitch Marini (baixista que também integrou as bandas mencionadas de Gélson). Fizeram vários shows em dobradinha com o Bixo da Seda. Destacam-se no repertório “Sombras” e “Betelgeus Star”.
– Bobo da Corte: na época do Mr. Lee, a banda tinha na formação Zé Vicente Brizola (filho do próprio e fundador do Bixo da Seda), Gatinha (bateria, posteriormente atuou no Saracura em sua fase inicial), Chaminé (baixo, depois Saracura) e Otavinho (guitarra). Fughetti Luz chegou a participar de uma das formações desta banda, antes de entrar para o Bixo. Rock direto levemente hard, numa levada bem juvenil, sendo de destacar “Genial Colegial”.
– Almôndegas: Banda seminal da música gaúcha dos anos 70, da qual participavam Kleiton e Kledir, e, ainda, Quico Castro Neves, Gilnei Silveira e Pery Souza. Depois, saíram os três últimos e entraram Zé Flávio, João Baptista e no finzinho (79) Fernando Pesão, este na bateria. Transitava pelo rock, bossa nova, milongas, temas regionais do Sul, Mpb e o que mais pintasse, com ótimas letras. Destaque para a Canção da Meia-Noite, que foi trilha da novela Saramandaia da Rede Globo, e Rock e sombra fresca no Quintal (ambas do genial guitarrista Zé Flávio).
– Hallai-Hallai: banda de country/folk rock, num estilo bem acústico, fazia um som muito legal, contava com Necão e Paulinho, entre outros membros que foram se revezando, sendo que em 1987, com Jorge Vargas no baixo, gravou um disco pela gravadora 3M, intitulando-se apenas como Hallai. Em destaque, as músicas “Cowboy” e “Quando viajar pro Norte” (esta de Fernando Ribeiro).
– Zé Flávio e o Mantra (posteriormente Mantra Jazz Rock circus): Banda capitaneada pelo guitarrista Zé Flávio, o qual, antes de monta-la, participou da banda-show Em palpos de Aranha, que também chegou a se apresentar em show do Mr. Lee (a Em palpos era Zé, Cláudio Levitan, Graça Magliani, Giba-Giba e Néri). O Mantra era formado ainda por Inácio (baixo), Fernando Pesão (bateria, também da banda instrumental Zacarias, que participou do Mr. Lee, posteriormente integrante dos Almôndegas, Saracura e atualmente nos Papas da Língua), e Jakka (percussão),  Zé Luiz (guitarra, ex-os Monges, e futuro Desenvolvymento) e Clóvis (percussão). Transitando entre o rock, o blues, a mpb, o tango, entre outras milongas, sempre com uma pitada “latina” a la Carlos Santana, fazia um som bem lisérgico e com muita energia. Destaque para “Dói em mim” e “A Margarida do Brejo”. A banda terminou quando Zé foi convidado para integrar os Almôndegas em 77, mudando-se para o Rio de Janeiro.
– Élbia: cantora que fez parcerias com o jornalista, radialista e músico Jimi Joe, apresentou-se no último show do Mr. Lee, realizado no Teatro Leopoldina, em 76, tinha uma música maravilhosa, que não deixava nada a desejar em relação à Rita Lee da fase Tutty Frutti, chamada “Como meu quociente de pureza se manifestou diante da Sociedade”.
– Gilberto Travi e o Cálculo IV: MPB com pitadas de Jazz e blues, com letras inteligentes e provocativas, nas quais eram utilizadas muitas das gírias dos anos 70, com um especial sotaque portoalegrense. Participou em todos os shows do Mr. Lee. Gilberto chegou a ser convidado por Liminha para gravar um compacto pela Warner, que havia se separado da Gravadora Continental, na época, e estava criando o seu cast, o que só não rolou em face da falta de garantias financeiras mais sólidas, além da exigência de que abandonasse a banda que sempre o acompanhou. Posteriormente, junto com o próprio Júlio Fürst, com Beto Roncaferro, e com João Antônio, formou os Discocuecas, banda impagável de “gozação” e “tiração de sarro”, na qual restou muito bem canalizada a face humorística que Gilberto também explora como compositor e performer. Em sua faceta “séria” destaca-se, no repertório de “Gilberto Travi e o Cálculo IV”, “Poluição” e “Pretensão”.
– Hermes Aquino: sensacional cantor e compositor, traçava o que viesse, do blues/rock à guarânia. Em sua fase tropicalista, nos anos 60, foi pra Sampa e orbitou em torno dos poetas concretistas, junto com sua prima Laís Marques e com Carlinhos Hartlieb, fechando parcerias com Tom Zé e o grupo o Bando. Depois voltou para o Sul e foi um dos principais nomes dos shows do Mr. Lee. Em face desta visibilidade, gravou pela Tapecar as músicas Nuvem Passageira e Matchu Pitchu, sendo que a primeira foi trilha da novela Casarão, primeiro lugar nas paradas de sucesso nacionais. Desentendendo-se posteriormente com a gravadora Capitol, que lançou seu segundo LP, recolhendo-se infelizmente em ostracismo em sua casa em Porto Alegre, o que vigora até hoje, para a tristeza de seus fãs.
– Utopia: Trio acústico à base de dois violões de aço (um deles de doze cordas) e violino, liderado por Bebeto Alves, contando também com os irmãos Ricardo e Ronald Frota. Difícil de classificar o seu som, feito de “viagens sonoras” típicas dos anos 70, com muito improviso e músicas intermináveis, me arriscaria a dizer que seu estilo era mais ou menos “psicodélico-acústico-progressivo”, com pitadas de jazz cigano (em entrevista que me concedeu, o Bebeto associou o som da banda ao Crimson de Robert Fripp). Desmanchou-se em 76 e lá por 78 teve nova formação, bem maior, e com uma proposta ligeiramente diferente da original, com Bebeto, Ricardo, Cao Trein, Zé Henrique Campani (que também foi dos grupos Emergência e Metamorfose, que participaram de shows do Mr. Lee) e até de Nico Nicolaiéwsky (passagem rápida), dentre outros. Lá por 79 Bebeto começou sua carreira solo.

  

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