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Documentário sobre o LP ROCK GRANDE DO SUL

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Lojas de discos em Porto Alegre

http://www.collectorsroom.com.br/2008/11/lojas-de-lps-em-porto-alegre.html

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O rock gaúcho dos anos 70

por Rogério Ratner

O rock gaúcho nos anos 70 teve um espaço e divulgação bem limitados, caso queiramos comparar a cena de então com aquela que se desenvolveu posteriormente, na década de 80. De fato, pelo menos até meados da década de 70, a maioria das bandas e artistas encontravam espaço para tocar especialmente em bailes realizados em clubes sociais pelo Rio Grande do Sul afora, e, então, sua atuação era fundamentalmente baseada na execução de “covers”. Além de canções do rock internacional, as bandas costumavam executar a “pop music” em geral, além dos sucessos nacionais. Mas como o foco deste tipo de apresentação, naturalmente, era botar o público para dançar, a grande maioria das bandas não tinha muito espaço para mostrar o seu trabalho próprio, autoral, nestas ocasiões. Em bares também era difícil, pois não havia até então uma tradição de casas noturnas abrindo espaço para grupos de rock apresentarem músicas próprias, de sua autoria; geralmente, os bares e boates que contratavam bandas  – que, aliás, não eram muitos -, exigiam que o pessoal tocasse música pop. O Bixo da Seda foi uma das poucas bandas que chegou a tocar em alguns bares na capital gaúcha apresentando o seu som, mas os locais em que se apresentou, de um modo geral, não deram prosseguimento a este processo de abertura ao rock gaúcho, ou mesmo não chegaram a vingar como “points” roqueiros.

Assim, o espaço que restava para as bandas e artistas era o dos teatros, o que também não significa absolutamente que fosse fácil a realização de shows nestes locais. De fato, as bandas enfrentavam uma série de problemas (que, aliás, ainda são recorrentes), em face do alto custo para fazer uma apresentação em nível profissional (equipamento de som, luz, produção, etc.). Então, não era raro que, na “pilha” de fazer o show de qualquer maneira, os músicos e produtores recorressem à utilização de seus próprios equipamentos, fazendo as apresentações somente com os próprios “cubos” de baixo e guitarra, ou contratando equipamentos e técnicos de som que não eram de melhor qualidade, o que muitas vezes levava à ocorrência de “ruídos”, como microfonia, voz “baixa e abafada”, guitarra muito alta, ou a bateria “cobrindo tudo”, etc. Embora hoje em dia não se possa dizer que seja fácil a realização de um show de rock nos teatros da capital gaúcha e do interior do Estado, ao menos para uma banda desconhecida, com certeza as dificuldades eram bem maiores na década de 70.

Realmente, eram tempos heróicos, em que o simples fato de um músico usar um equipamento importado (guitarra, baixo ou bateria) já era motivo para frisson, considerando-se que, à época, a importação de instrumentos era praticamente proibida no país. O governo militar, em mais uma de suas contradições, pretendia incentivar a indústria nacional de instrumentos musicais, o que efetivamente resultou na criação de uma verdadeira reserva de mercado para fábricas sem o necessário “Know-hall” de produção de instrumentos elétricos ou destinados ao rock. Esta política terminou  obrigando os músicos a valerem-se dos produtos de marcas tais como Giannini, Finch, Del Vecchio, Di Giorgio, Tonante, Pingüim  ou, então, no nosso caso, da Mil Sons, pioneira fábrica gaúcha de guitarras. Era contraditório tal procedimento porque, de um modo geral, o golpe militar adveio justamente para garantir o aprofundamento da integração do mercado brasileiro ao capitalismo internacional. Contudo, em algumas áreas, num de seus curiosos rompantes nacionalistas, os militares decidiram incentivar os fabricantes brasileiros, ainda que estes não produzissem produtos de boa qualidade. Isto não ocorreu apenas em relação aos instrumentos musicais: deu-se também em relação à indústria de brinquedos, bebidas, computadores, e muitas outras coisas. Até em relação aos automóveis, embora as fábricas existentes no Brasil, em sua quase totalidade, fossem estrangeiras, também foi estabelecida uma reserva de mercado em favor das marcas aqui já instaladas, de forma a coibir a “importação”, como se os veículos produzidos aqui não fossem, em realidade, estrangeiros. Com relação à música, que é o que nos toca, constata-se que este tipo de protecionismo, em verdade, não fortaleceu a produção nacional de instrumentos musicais, mas apenas garantiu o maior enriquecimento dos fabricantes, que vendiam produtos de baixa qualidade por preços astronômicos. Prejuízo para os músicos e para o público ouvinte. Esta realidade teve um efeito especialmente deletério por aqui, pois como não havia um público amplo para o rock gaúcho, em decorrência, a maioria das bandas tinha dificuldades redobradas para adquirir, e, em decorrência, tocar com um bom equipamento. Neste aspecto, sem dúvida, pode-se dizer que atualmente a coisa melhorou.

Ainda, enfrentavam os músicos e produtores de rock problemas tais como a própria resistência que os responsáveis pelos teatros tinham em ceder os locais para a realização de um show de rock. A própria Assembléia Legislativa, na qual estava prevista a realização da Mostra de Música Gaúcha, em meados da década de 70, vetou a realização da segunda noite do evento, simplesmente porque alguém da platéia havia rasgado uma das poltronas do auditório na primeira noite. De fato, o estigma que o público roqueiro carregava na época (de loucos, malucos, drogados, vândalos, RSS) era muito arraigado em uma sociedade que era extremamente conservadora. Como muitos destes locais eram públicos, é natural que houvesse uma certa resistência por parte dos responsáveis, mesmo porque eram indicados pelos governos interventores escolhidos pela ditadura (cabe fazer aqui um parêntesis para uma digresssão: uma questão que talvez merecesse maior destaque, tanto por parte da mídia, como por conta do pessoal que realiza estudos acadêmicos que são feitos sobre o período do regime militar imposto no Brasil em 1964, é a de que a perseguição contra os dissidentes não ocorria apenas em relação aos ativistas políticos, mas também em relação aos jovens que não se “enquadravam” na moral vigente, especialmente aqueles envolvidos com o uso de drogas, ou simplesmente porque fossem “cabeludos”. Muita gente foi perseguida pelo seu estilo de vida na ditadura militar, e não foram apenas figuras famosas (como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Rita Lee, etc.) que foram bastante visados pela polícia, que ao mesmo tempo era política e de costumes. Muito “magrinho” e músico de Porto Alegre sofreu com a perseguição da polícia naquela época, e eram comuns as prisões, ainda que nada de ilegal fosse encontrado em posse dos detidos. Bastava ter um visual mais escrachado para entrar no “grupo de risco” de um atraque, tão comum no Bom Fim e em outros locais onde se reuniam jovens, naquela época).

Mas voltando ao nosso tema, cumpre ressaltar que o Theatro São Pedro, de outro lado, embora tenha abrigado shows de bandas como Liverpool e Saudade Instantânea, além do primeiro Musipuc e da Mostra de música do IPV (cursinho pré-vestibular do hoje prefeito de Porto Alegre, José Fogaça), dentre outros eventos, foi fechado para reforma em 1973, para reabrir apenas em 1984, ficando “fora de combate” na maior parte da década.

Assim, os locais em que as bandas de rock gaúchas podiam se apresentar eram, fundamentalmente, o Clube de Cultura (na rua Ramiro Barcelos), o Teatro de Arena (onde Carlinhos Hartlieb promoveu as suas míticas “Rodas de Som”), dois teatros independentes pequenos, “malditos”, por estarem vinculados ao pessoal simpatizante da esquerda. O Teatro de Câmara (hoje Teatro de Câmara Túlio Piva), da Prefeitura, também abrigou shows de rock. O auditório Araújo Vianna também era um dos espaços frequentemente usados, mas geralmente em apresentações coletivas ou em festivais. Para quem tinha mais cacife – especialmente o Bixo da Seda -, o Teatro Leopoldina (que depois virou o Teatro da Ospa, ali na avenida Independência) também era uma opção, mas pouco utilizada, diante do grande tamanho da sala e do preço de locação.

Os auditórios de colégios, tais como o do Anchieta, o do Julinho e o do Rosário, dentre alguns outros, também abrigavam eventualmente algum show do gênero, e realizavam festivais de rock. Alguns centros acadêmicos de Universidades, tais como o CEUE (Engenharia) e o DAFA (Arquitetura), ambos da UFRGS, também realizavam eventos musicais. Também alguns clubes, como o Grêmio Náutico União, e a própria Brigada Militar, às vezes cediam os seus ginásios para eventos deste tipo.

Embora em meados dos anos 70 o Gigantinho já houvesse sido inaugurado – antes dele, shows de rock aconteceram no Ginásio do Grêmio, inclusive o do guitarrista mexicano Carlos Santana -, as bandas gaúchas geralmente apenas tinham acesso ao seu palco abrindo shows de grupos nacionais ou internacionais, ou em shows coletivos. Foi o caso do Bixo da Seda, que participou de um mitológico show junto com  O Terço e  Os Mutantes, no Gigantinho, em 1975. Inconsciente Coletivo, Bizarro e Utopia, por exemplo, abriram o show de Bill Halley, no mesmo local. Antes disto, o Saudade Instantânea chegou a abrir um show dos Secos e Molhados.

Se, por um lado, havia tantas dificuldades para o desenvolvimento de um trabalho de rock em Porto Alegre nos anos 70, por outro, deve-se salientar o fato de que os poucos artistas e bandas que conseguiam se desvencilhar de todos estes percalços contavam com alguma “vantagem” – se compararmos aquela cena com a atual -, se é que podemos considerar assim, qual seja, a de serem, geralmente, a única atração do gênero na cidade em determinada noite. Com efeito, eram tão raros os shows de rock naquele período em Porto Alegre e no RS que geralmente as bandas, quando se apresentavam, contavam com um pequeno, mas fiel público, que garantia a realização dos eventos com resultados financeiros positivos, ou sem que houvesse prejuízo financeiro para os produtores. É evidente, contudo, que isto não se aplica a todos os shows realizados naquele período, especialmente quando os artistas/bandas não eram assim tão conhecidos. Além disso, a imprensa escrita (cujos maiores veículos eram Zero Hora, Folha da Manhã, Folha da Tarde, Correio do Povo e Diário de Notícias), garantia uma eficaz divulgação do movimento musical de Porto Alegre. Hoje, evidentemente, diante da infinidade de eventos – sejam internacionais, nacionais ou locais -, que ocorrem na mesma noite, é muito difícil que as bandas locais, especialmente se não forem tão conhecidas, gozem de um mesmo espaço na mídia jornalística tradicional do que poderiam obter naquela época, até por uma questão do espaço limitado que os cadernos de cultura dispõem em tais órgãos de imprensa.

Um outro aspecto positivo que deve ser ressaltado, em relação àquela cena musical, é o da união do pessoal roqueiro, que geralmente se agrupava para a realização de shows. Assim, era usual que ocorressem shows coletivos, reunindo diversas bandas e artistas. Embora não se possa dizer que tal “união” fosse regra universal – até pela verdadeira impossibilidade de se obter uma unanimidade de comportamento em qualquer grupo social que se enfoque -, o certo é que o pessoal, de uma maneira predominante, juntava forças para fazer a cena acontecer. Nos shows individuais de bandas, também era comum que a banda “principal” convidasse outra para fazer a abertura. Esta característica, aliás, parece ter perpassado a história do rock gaúcho, verificando-se até hoje.

Das principais bandas/artistas que se destacaram naquele período, fazendo trabalhos autorais, podemos indicar, além do próprio Bixo da Seda (que reuniu diversos ex-membros do Liverpool, e que era disparado era o grupo de maior prestígio, sendo, inclusive, um dos poucos grupos gaúchos efetivamente integrado na cena roqueira nacional, gravando disco e participando dos festivais nacionais de rock, tais como  o “Banana Progressiva” e o “Festival de Saquarema – RJ ”), bandas/artistas como  Saudade Instantânea, Succo, Bizarro, Bobo da Corte, Khaos, Rola Blues, Trovão, Barra do Porto, Zacarias, Caixa de Espelhos, Auge Perplexo, Funeral, Impacto, Laranja Mecânica, Alma de Borracha, Prisma, Brick, Rio Grande, Swing, Roberto Marcon, Élbia Solange, Crepúsculo, Demian, Lobos da Rua, Kachimbus, Trilha do Sol, Grupo Latino, Tector II, a Banda do Tarta, Alma e sangue, Sexto Sentido, Kariman (de Santa Maria), Farinha do Bruxo (de Rio Grande), Flor de Cáctus (de São Leopoldo), Labaredas (de Pelotas). Outros grupos e artistas, fazendo um som mais acústico ou voltado à MPB, também transitaram bem na cena musical roqueira, tais como  Inconsciente Coletivo, Mordida na Flor, Utopia, Mantra, Hermes Aquino, Cláudio Vera Cruz, Carlinhos Hartlieb, Hallai Hallai, Almôndegas, Em palpos de Aranha, etc.

Não há dúvidas de que o trabalho desenvolvido por estes artistas/bandas, apesar de todas as dificuldades que encontravam para fazer “o som rolar”, criou um alicerce para a consolidação da cena roqueira gaúcha, o que ocorreu já nos anos 80, e que continua progressivamente até hoje, com muita consistência.

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