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A primeira banda de rock formada somente por mulheres de Porto Alegre

matéria publicada na Zero Hora, de autoria do jornalista William Manske

 

 

Influenciado pelos Beatles, quarteto feminino surgiu na Capital nos anos 1960

Arquivo Pessoal / Reprodução
As Andorinhas se inspiravam nos Beatles até nas fotosArquivo Pessoal / Reprodução

Foi pensando em ser os Beatles que quatro adolescentes do bairro Menino Deus, em Porto Alegre, formaram uma banda de rock pioneira em 1965, apontada como o primeiro grupo integrado só por mulheres da Capital. Fãs do quarteto de Liverpool, Vera Maria Célia (baixo), Rose Marie Porto Alegre Pereira (guitarra solo), Nubia Maria Abreu Friedrich (guitarra base) e Yoli Planagumá (bateria e voz) se tornaram As Andorinhas.

As quatro eram colegas no colégio Maria Imaculada e tinham entre 13 a 14 anos. Inicialmente, integravam o grupo da instituição, denominado The Eagles. Logo, atenderiam o chamado da beatlemania e montariam uma banda nos moldes dos rapazes britânicos.

Embora a reunião não tivesse maior pretensão artística, Yoli recorda que elas passaram a ensaiar bastante. Afinal, aquelas andorinhas queriam fazer verão.

 — Ensaiávamos pra caramba! Dividíamos o sonho de fazer músicas como as dos Beatles e viver a vida de artistas. Queríamos ser muito boas — relata Yoli, 68 anos, que depois iria fazer parte de bandas como As Brasas e Pentagrama, além de seguir carreira de cantora.

Havia dias que os ensaios realizados na Rua Silveiro, na casa de Rose ou na garagem da casa de Nubia, se estendiam das 14h às 22h – com devidas pausas.

Às vezes, ensaiavam três vezes por semana. Yoli destaca que havia um bom astral entre as garotas. Era um ambiente descontraído, mas ao mesmo tempo de muito estudo.

— Discutíamos sobre música, sobre acordes. Tirávamos as canções de ouvido, escutando na vitrola. Fazíamos revezamento, cada uma ouvia individualmente a música no aparelho para tentar aprender a sua parte — narra a cantora.

As Andorinhas não viviam de ensaio: também realizaram apresentações. Tocaram em festas da escola, em bailes e em um evento no antigo Estádio dos Eucaliptos. Segundo Yoli, os shows duravam cerca de uma hora. Elas ainda participaram de programas na TV Piratini e na Rádio Difusora.

Não havia música autoral no repertório de As Andorinhas, mas a influência mais clara dominava as apresentações: tocavam And I Love Her, Twist and Shout, Love Me Do, A Hard Day’s Night, entre outras canções dos Beatles. Sucessos do rock e pop da época também era tocados. Versões de músicas do cantor americano com ascendência mexicana Trini Lopez eram recorrentes.

— A nossa música carro-chefe era La Bamba, que sempre dançávamos nos shows. Fazíamos uma coreografia junto com as guitarras — recorda Nubia.

Assim como os ídolos de Liverpool faziam até então, As Andorinhas também adotaram uniformes para se apresentar ao vivo.

— Vestíamos calça preta, camisa branca, coletinho vermelho e uma botinha preta. Uma gravatinha twist na camisa. Não era ainda muito comum na época as mulheres usarem calça comprida. Não iam assim para todo lugar. Éramos uma raridade (risos) — diverte-se Nubia.

Sem deixar nenhum registro gravado, As Andorinhas dariam seus rasantes até por volta de 1968. A formação já era outra quando a banda acabou: Célia saiu para a entrada de Glaucia no baixo, e Yoli foi substituída por Loreta Rodrigues na bateria e vocal.

— As coisas foram perdendo o pique. Envolvimento com namorados… Eu queria continuar. Tinha muita ambição. Recebi uma proposta para tocar com As Brasas e saí da banda — diz Yoli.

Exótico

Arquivo Pessoal / Reprodução
Em pé: Vera Maria Célia e Yoli; agachadas: Rose e NubiaArquivo Pessoal / Reprodução

Tanto Nubia quanto Yoli não se lembram de enfrentar situações desrespeitosas por integrarem uma banda formada só por mulheres. Nubia conta que As Andorinhas eram vistas como algo positivo e exótico naquela Porto Alegre dos anos 1960. De qualquer maneira, é pioneira entre as bandas de rock só de mulheres do Estado.

— Me sentia importante por fazer parte de uma banda feminina, principalmente porque era inovador para uma mulher tocar guitarra naquela época. Uma recordação muito boa. Uma adolescência mais pura. A música é uma coisa que te dá muitas recordações. A música em si… é vida — reflete a ex-guitarrista.

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